terça-feira, 27 de setembro de 2011

Raquel resolve: Problema 7

"[...] Se uma mulher sensível, com um pai insensível, tiver filhos de um homem sensível, que já tenha tido uma filha insensível com outra mulher, qual é a probabilidade: a) do primeiro filho deste casal ser insensível; b) do segundo filho ser insensível; c) de terem uma série de três filhos em que os dois primeiros filhos são sensíveis e o irmão mais novo é insensível."

Eu acho que uma mulher sensível com um pai insensível já deve ter carpido muito pela vida fora e faz muito bem escolher um homem sensível. Se o dito cujo tem já uma filha insensível, é questão de lhe dar uns quantos correctivos educacionais, e pode ser que a coisa mude. Além de que, o facto de ter uma filha per se, dá logo garantias de ele não ser demasiado sensível, o que pode poupar a muitas chatices aquando da festa do 28.º aniversário de casamento em que lhe salta a tampa e ele se lembra de confessar perante todos que a sensibilidade não é um defeito, é um feitio, e fica bem mais chique com plumas, lantejoulas e purpurinas...
Acho só bastante importante que refiram que o "homem já tenha uma filha com outra mulher", porque isto agora anda pr'aí muito tubo de ensaio hormonalmente excitado, muita zaragatoa atiradiça, e convém explanar bem a situação.

Respostas:
a) A probabilidade do primeiro filho ser insensível depende do tempo que o puto passa com a irmã partilhada pelo lado do pai.

b) A probabilidade do segundo filho ser insensível, depende da nabice dos progenitores, porque à primeira cai quem calha; à segunda, cai quem quer; e à terceira, meus amores, caiem os mancos e os coxos, e enquanto não arranjarem umas muletas, não há nada que vos valha!

c) A probabilidade de terem uma série de três filhos em que o mais novo, ao contrário dos outros dois, é insensível, depende da promiscuidade da mãezinha. É preciso cuidado com isso, porque acaba sempre por se descobrir tudo!


Às vezes pergunto-me se não seria melhor comprar Lux's e Cara's e demais literatura do género, em vez de estar a gastar o dinheiro em propinas e fotocópias. É que, no fim de contas -e aparentemente-, tudo se resume ao mesmo: fofoquices escarafunchadas sordidamente...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Expectativas, ilusões, e demais complicações

E eu a achar que a "Escolinha Creoula" nos preparava para tudo. Que os solavancos da vida iam ser todos facilmente transponíveis, que os soluços do Mundo iam ser todos facilmente superáveis, que os abalos do chão e os buracos das estradas e as vias sinuosas iam ser todos inconstâncias passageiras, eis que entro num bus, ele arranca antes de me conseguir segurar, dou dois toques de rabo, um de anca, e três encostos vergonhosos aos utentes cativos, e vejo que afinal a confiança que trouxe saiu gorada.

STCP: a fazer o Levante parecer um menino, desde 1946.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ciências, eu te adoro!

Porque não se deve só falar do menos bom em jeito de crítica, mas também do melhor como quem dá os parabéns pelo facto, quero fazer saber que estou maravilhada com a FCUP, por ter nomeado um anfiteatro de "Slb"(*). Assim, não só não custa ir às aulas, como até apetece!

Um bem-haja, FCUP!


(*) Em bom abono da verdade, é "Slbrt", mas é complicar desnecessariamente, e como não sei o que sugnifica o "rt" (tão-pouco o "Slb" neste contexto, convenhamos...), acho que é claramente desprezável, naquela base dos algarismos significativos, porque se não queriam que eu fosse assim, não me ensinassem coisas e ficassem à espera que eu as não usasse na minha vida!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Bem-vindos de volta às viagens regulares nos urbanos da CP

Há uma zona nos comboios urbanos do Porto que está disposta da seguinte maneira: porta - conjunto de 4 bancos - fole - conjunto de 4 bancos - porta.

Entram duas senhoras que, se fossem personagens de uma estória que eu escrevesse, seriam duas amigas reformadas sem netos para ir buscar à escola, acabadinhas de chegar da confeitaria mais próxima que tivesse candelabros de vidrinhos no tecto, que essas mais modernas de agora, com os seus focos e tectos falsos são impessoais e feitas só para ganhar dinheiro, que já não há cuidado com as pessoas, somos tratadas como "mais um", a despachar!, depois de terem lanchado uma torrada em pão saloio e um chazinho de tília, servidas pelo sempre paciente Sr. Alfredo, empregado da casa há anos, mais calmo que um panda sedado, depois de uma ter cortado na casaca de todas as jovens de hoje em dia, que passavam de ombros à mostra e calções curtos, e de todos os jovens de hoje em dia, que passavam de calças rasgadas e t-shirts coloridas, e de a outra ter concordado apenas, pois que remédio, que mais não conseguia fazer, ainda que estivesse tentada a dizer que não é bem assim, é deixá-los andar, que até dão mais cor aos dias, livra-te mulher!, que arriscas-te a perder a parceira do bridge das Quintas-feiras, entram, então, por uma dessas portas. A mais diplomata entra no banco que logo se lhes apresenta, e diz-lhe a outra "vamos antes para ali", apontando para o conjunto de bancos seguinte. Pensei para mim -porque ainda não tinha mergulhado na literatura, que vidas dos outros, a interessarem-me, só mesmo as que se desenrolam nas letras de um livro-, "a senhora não quer ir de costas", quando ela argumenta a ordem com um "porque ficamos mais perto da porta".

Engasguei um sorriso com a bolacha que estava a comer, e senti um abraço do quotidiano enquanto me dizia "por aqui fiquei enquanto foste e vieste, e por aqui vou continuar. Bem-vinda de volta!"

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Creoula - parte IV "As Sensações"

Imaginem um tubo de ensaio. Dentro desse tudo estão vidas já criadas e consolidadas, construídas com todas as peças que foram encontrando ao longo do tempo que por elas passou. A esta incrível diversidade, juntaram-se-lhes denominadores comuns: o tempo, as situações, os momentos, os imprevistos, o espaço.
O que temos, é aquilo que, na voz de quem sabe no-lo foi dito quando ainda mal déramos conta do que se passava: 40 viagens individuais e não uma só.

A minha, portanto, posso então dizer que a senti como sendo impactos e percepções, construções e adaptações, vivências e tudo mais que até podia acontecer em dias vulgares e "normalizados" (mais do que "normais"), mas em velocidade mach 3. Explico-me: não ponho em dúvida que, ao longo da minha vida futura, fossem acontecer situações que exigissem de mim o mesmo, mas nunca, nunca! com a intensidade que o Creoula imprimiu. Jamais me sentiria tão capaz de as resolver, de as absorver, de sorver o maravilhoso e de encolher os ombros de modo altivo face ao menos bom.
Desta viagem, não saí diferente. Sou eu mesma, sempre eu, sempre igual, mas com outra consciência do que consigo atingir. Mas, acima de tudo, aprendi o que muitos não aprendem numa vida inteira. E, como frente a tanto que todos os dias via e sentia, dizia, "se não fosse por mais nada, só por isto já valeu a pena!" E sim, esta viagem fez-se de "istos" que valeram muito a pena.

Uma das melhores sensações é a de "conduzir" o navio. Ter o leme nas mãos e sentir-lhe a robustez. Acrescido a isto, o leme é uma das zonas de onde melhor se percebe o movimento do navio, porque se tem uma visão quase desimpedida para o mesmo (da popa para a proa, vulgo "de trás para a frente").
Tive a sorte de estar ao leme na altura em que andávamos não aos círculos, mas dentro dum quadrado imaginário, à espera de melhor humor do Levante, para passarmos o Estreito. Chegados à "aresta" do quadrado, é necessária uma viragem de 90.º, e sentir o navio a virar, vê-lo a inclinar-se na água, ver as velas cederem às rajadas de vento que se começavam a sentir de outra direcção, olhar para o radar e para a bússola e ver os graus passarem, é incrível!

No lado oposto, na proa, descobri certa vez, e se bem me lembro, à conta duns golfinhos que apareceram, que era o melhor sítio para injecções de adrenalina, ao jeito de divertimentos de feira popular -é uma boa analogia, mas não tem nada a ver...-. Tenham presente os balancés e o movimento deles, e percebem o que digo. Nas extremidades, sente-se muito mais o movimento, principalmente o descendente. Ficámos (eu e um outro viciado naquele sensação) um horror de tempo, naquele dia (que, isso sim, lembro-me, foi quando estávamos a passar ao largo do Algarve, quem sabe até já ao largo de Huelva ou mesmo Cádiz), ali inclinados borda fora, a sentir a leveza ímpar que nos levava de encontro ao mar, e quando parecia mesmo que lhe íamos tocar, o amparo no peito, como que um abraço, puxava-nos de volta acima, à tona da água, ao flutuar que pouco durava pois que logo a seguir vinha mais uma onda encorpada que deixava para trás o fosso para o qual o Creoula nos atirava e salvava logo de seguida.

A proa é o local do vigia. Há um sitinho privilegiado para essa tarefa, mas há também o telhado duma das entradas para o interior do navio, que eu sei que tem um nome, mas que agora me escapa..., no qual ficávamos muitas das vezes que essa função nos competia. E daí, víamos os 360.º de mar à nossa volta, o horizonte a separá-lo do céu, dissessem-me que estávamos dentro dum souvenir daqueles que se abana e se entontecem pseudo-floquinhos de neve, purpurinas ou o que seja, e eu acreditava. Tenho um vídeo, mas não é de longe e muito menos de perto, fiel ao maravilhamento que se sente ao se estar lá, ao nos darmos conta daquilo. E eu queria ter subido muito mais alto para, sem ter que rodar sobre mim, ver a curvatura da Terra.

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Uma sensação mais táctil do que romantizada, vá..., é a sensação de chamemos-lhe viscosidade, não o sendo, de tudo o que é lambido pelo vento marítimo. É uma humidade inigualável, que se entranha no cabelo, envolve as pernas, os braços, abrilhantando-os, calça as mãos, impossíveis que se tornam de alguma vez estarem lavadas e limpas. E está por todo o lado. E, se dúvidas houvesse, saberíamos instantaneamente, mal saíamos para o convés, que estávamos no meio do mar.
E quantas vezes é forte e frio, e vem contra a cara, e chapinha contra o costado. Mas, às vezes, acalma demasiado o mar. Faz da nossa passagem uma perturbação insipidamente efémera, contrastante com o carácter salgado que tantas lágrimas, segundo o poeta, temperou.

No interior, mais uma vez na altura do Levante -acho que ele se está a tornar monopolizador, o safado!-, estava eu sentada à entrada da Biblioteca que, como todas as portas, relembro, tem um degrau, e olhei em frente para uma escotilha. Era de madrugada, pouco depois das 7h, e ainda estava aquele tom azulado no céu, de quando o Sol está mais ensonado do que quem madruga, e parece-me ver água. Estranhei, pois que a água nunca andava ali por cima (ou, melhor, o navio não nunca andava tão abaixo da linha de água), e deduzi sem sombra para dúvidas que devia ter lavado mal os olhos e o sono que não tinha ficado na almofada me estava a pregar partidas. Pisquei os olhinhos, semicerrei-os e sim, era mesmo água. Naquele momento, estávamos debaixo de água, e não sei explicar porquê, sorri e fiquei encantada com o facto. Quando fizerem uma "Universidade Submersa no Mar", estou lá!

Mas nem todas as sensações são boas. Há aquelas, que mesmo tocando cá dentro, fazem-no na parte má do assombro. Neste lado do espectro, tenho a sensação de impotência ao ouvir no rádio um Mayday. É incrível, porque pode estar uma turma de putos do ciclo a serem eles próprios, i.e., barulhentos, 2 tenores a fazer exercícios de aquecimento de voz, um baterista a treinar para o concerto que vai dar logo à noite, e um reco-reco a aparvalhar, que mesmo assim, quem trabalha na Ponte consegue ouvir o rádio! No entanto, um "Mayday Mayday Mayday", cala toda a gente, fica tudo de ouvido à escuta, a voz trémula que o pede desperta vontades de dizer "não te preocupes, já aí vou!", e saltar borda fora, mas a ligação está péssima, não se percebe o local onde ela diz estarem, as coordenadas não chegam até nós, o ECDIS não mostra o navio, não sabemos se é perto, se é longe, às tantas, no meio do ruído de estática cremos perceber um nome, procura-se no mapa, não existe, "Mayday, Mayday, Mayday", "Please, transmite your coordinates!", ouve-se que o motor da âncora avariou, não a conseguem subir, que estão perto dumas rochas e o mar está a ficar revolto e está a atirá-los de encontro a elas, são dois ocupantes, "Mayday, Mayday, Mayday", procuram-se soluções, não as há, "O que fazemos?", "Nada", dizem-nos ainda mais abatidos do que nós, "Mayday, Mayday, Mayday", finalmente no rádio o serviço de Busca e Salvamento de Ibiza faz saber que os vai acudir, isso quase que desanuvia o ar, mas é impossível, transmitem-lhes que têm que abandonar o barco, "abandon ship?!", pergunta a voz trémula, "Yes", diz uma voz autoritária, "You MUST abandon ship!", "but...", "You MUST abandon ship!", a dor que deve ser ter que sair, saber que tudo vai ficar por ali, que seja só o barco, mas lá se pensa nisso em alturas de aflição!, só posso imaginar o pânico que deve ser, abandonar soa a desistir, abandonar torna tudo mais real.
Não sei o desfecho da estória. Ninguém ficou a saber. Se a minha vontade mandasse, tudo se resolveu pelo melhor. E quero acreditar que sim.


Houve mais, muitas mais!, algumas impossíveis de arrancar de lá e contar, algumas outras só para quem lá esteve, umas poucas para uma meia-dúzia, talvez nem tanto, de sortudos que as ouvem da minha boca, mas todas elas minhas e inesquecíveis!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O verdadeiro sentido das coisas

Corria o ano de mil-e-qualquer-coisa -se bem me lembro- quando alguém inventou as passagens para peões para tornar mais seguro o acto de atravessar ruas. Impõem as ditas, portanto, uma rua, um pedestre e carros.
Ora hoje, capto no meu campo de visão um homem que queria ir de um aqui para um ali. Chega-se à passadeira, anda até meio dela e estaca. Pensei "pronto, perdeu o Norte! Já não sabe onde está, quem é, para onde quer ir!" Fica ali uns segundos com ar de perdido, roda sobre si, nunca deixando o seu ar aluado, e decide-se a voltar para o passeio de onde partiu, onde fica uns bons minutos sem que eu desse conta de que ele estava a micar a rua. Eis senão quando vê um carro chegar-se à zona da passadeira! Espera, espera, e quando a viatura está mesmo a chegar à passadeira faz-se ao caminho. O carro trava e ele lá segue segurérrimo de si, pois que usou e bem! uma passadeira.

É bonito, tão bonito quando se vê usarem as coisas para o que elas foram feitas!
É as passadeiras e os hospícios... Lindo!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Saudades, que saudades

Saudades, que saudades eu tinha do jogging à beira-mar!

Apesar do primeiro da época ter sido no 6.º dia de Setembro, não trocava o Agosto que tive pelos joggings estivais de outros anos, apesar dos piropos que vêm da praia e dos ciclo-PSP's na sua ronda de final de tarde. Até porque em Setembro, a marginal é só nossa.

Melhor, muito melhor.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Creoula - parte III "As Vergonhas"

Dona Flor ficou conhecida pelos seus dois maridos. Dona Raquel, como odeia ser tratada, ficará eternamente conhecida pelas suas vergonhas. Aonde quer que vá, leva-as consigo, porque a companhia que lhe fazem é tanta que Raquel acha que elas também merecem viajar e conhecer e tudo e tudo e tudo.


Acto I
Indicação cénica: Cozinha, manhã cedo (quarto das 8h às 12h), Raquel é posta a descascar alhos.

Há uma característica muito boa (entre outras extremamente boas) a meu respeito: na cozinha tenho muito jeito para pôr a louça na máquina (já tirar, nem sempre, já que pode calhar de ir parar ao hospital). Claro que também consigo lavá-la à mão, consigo mesmo fazer gelatina -mas leio sempre a "receita", para prevenir dissabores-; chá, mas nunca com ervinhas porque as quantidades e eu nunca nos demos muito bem; massa, mas só para mim porque os meus gostos são incomparáveis; e fiz uns mexidos divinais no Natal passado mas nunca mais me meto noutra não vá correr menos bem. Fora isso, é esquecer.
Ora de alhos, que sei eu? Sei que são muito bons para a circulação e maus para o hálito, e que vêm em aglomerados. Quer dizer, eu sei o que é um alho! Sei que é branco-amarelado e que impõem serem descascados para deles se tirar proveito. Quando me dizem "descasca estes alhos" eu "ya, tudo bem!", porque a Raquel nunca se nega a nada e não mostra nunca ignorância nem incompetência. Se não sabe, espreita disfarçadamente para quem saiba e resolve melhor ou, quase nunca, pior, a situação.
Aglomerado de alhos na banca à sua frente. Raquel não tem meias medidas e desata a arrancar os dentes um a um e a pô-los de lado, convencidérrima de que aquilo era descascar alhos.
Não sei se por ter dado conta da minha nabice, se só para adiantar serviço, um dos cozinheiros prostra-se à minha frente a, realmente, descascar alhos. Ao ver aquilo, Raquel tem micro-acessos de riso, que tenta que passem despercebidos tão bem quanto a azelhice que escancarou ali no meio. Pega então nos dentinhos que tinha posto de lado, a tentar que a imagem que passa fosse a de organização e não de falta de saber, e foi descascando-os enquanto engolia o riso da melhor maneira possível.


Acto II
Indicação cénica: Mar Mediterrâneo. Raquel, enfiada na água até um bocadito acima da cintura, presta-se a tentar usar um snorkel

O Mediterrâneo tem tanto de límpido quanto de salgado. Da primeira, advém a vontade de fazer snorkling e ver peixinhos e coisinhas lindas debaixo de água; da segunda advém a nula praticidade em mergulhar. Ora eu, que quando quero deixar alguém perdido de riso numa piscina basta tentar sentar-me no fundo da mesma, porque devo ser arraçada de ave e ter ossos ocos, e flutuo melhor que o bacalhau de molho, tive a ideia mirabolante de querer experimentar uns óculos e um snorkel, "porque não deve ser nada difícil, é só respirar pela boca!"
Pedi os apetrechos emprestados a um jovem do grupo, preparo-me toda -óculos desde a testa até ao lábio superior, snorkel preso nos dentes- e, prevenida como gosto de ser, tento respirar com a coisa, em seco. Perfeito! Mergulho então, já com imagens de cavalos marinhos amarelos e raias cinza metálico e polvos roxinhos na mente, o meu rabo é um fraco face ao sal e empina-se todo, troco as imagens de peixinhos pela de patos de "cabeça para baixo, rabinho para o ar", vá-se lá saber porquê, dou uma inspiradela pelo nariz, combato contra o meu próprio CO2, dou logo três ou quatro arfadelas pela boca, tento bater as perninhas para tentar minimizar os danos, atrapalhei-me toda e upa cá para cima. Olho em volta, na esperança de ninguém estar a olhar para mim, mas os óculos, para além de serem de plástico estão todos embaciados, penso "mulher, à segunda é que é!", volto a enfiar a cabeça na água, o rabo volta a ficar de fora e eu quero lá saber, quero é peixinhos coloridos, carai!, duas ou três arfadelas, quase me sinto sufocar com o meu próprio CO2, venho à tona, e vejo o dono dos artefactos a olhar para mim, a pôr-me a mão num ombro e a perguntar, com um misto de pânico e preocupação: "tu estás bem?". "Não!", disse num sopro enquanto tentava normalizar a respiração e o compassar do coração. "Tenta outra vez!", diz-me ele. "Achas?! Quase morri desta! Que raio de notícia dariam à minha mãe? 'Olhe, a sua menina morreu sufocada no meio do mar'! Deixa lá isso. Toma, vai lá explorar, e depois contas-me tudo!"


Acto III
Indicação cénica: Cobertas, meio da tarde mas escuro como breu, que havia gente a dormir. Raquel tenta chegar-se à sua cama para ir buscar os óculos.

Relembro, caso tenham esquecido, que eu dormia num espaço exíguo com mais 5 miúdas. Como se passam muitos dias no mar, longe de comodidades como máquinas de lavar a roupa, a roupa interior era lavada à mão e posta a secar em fios que atravessavam os 7mm de largura do corredor que separava os nossos beliches. Farta que eu estava de levar com cuecas e sutiãs na testa de cada vez que ia à cama, decidi-me a entrar no corredor semi-curvada para evitar os obstáculos (um ultraje, devo dizer, para todos os rapazes que me ouviam queixar da minha triste sina: "Mau, dizes tu?! Quem me dera levar com cuecas na cara de cada vez que me deito!" Adiante...)
Vou eu, já toda confiante na minha destreza em andar num navio em alto mar, entro na coberta, faço a primeira curva sem espinhas, curvo-me à entrada do corredor, vou feita touro, toda pujante e intocável e pumba! com a cabeça contra o traseiro da miúda do andar de cima, que estava apoiada com os pés nas camas de baixo. "¿Quién es?, ¿quién es?", grita ela atarantada.
Não lhe disse quem era, pois que me pisguei de fininho dali para fora para não tornar aquele momento mais confrangedor, que ainda ia haver mais convívio, mais dias ali enfiados, e eu dispenso mexericos. Quanto aos óculos, passei bem sem eles, e antes me tivesse dado conta disso mesmo mais cedo...

[para estas, pois que não tenho fotos, com certeza que não. E só posso esperar que não as haja...]

domingo, 4 de setembro de 2011

Creoula - parte II "A Personalidade do Atlântico"

Quem já passou férias no litoral Oeste de Portugal conhece o feitiozinho daquele que nos banha. Tanto está impávido e sereno, como se estrebucha todo e fica de mal com a vida.
Lá longe onde são poucos os que têm a sorte de o conhecer, ele tem mais tendência a mostrar-se bravo -a bem dizer, como se quer um Oceano que se preze de o ser-, até porque, e apesar de banhar muitas mais costas para além da nossa, temo-lo por Português, e Português que é Português é tendencialmente abespinhado.

Acresce ainda outro factor: o Sr. Vento. Ora quando o Sr. Vento e o Sr. Atlântico estão em sintonia, perfeito, içam-se as velas e até se chega ao destino antes do previsto. Quando se insurgem um contra o outro, temos o Creoulinha a balouçar, quem vai dentro dele a perder o centro de gravidade, uns quantos ainda à luta com o ouvido interno e as chatices que isso traz, e uma sensação de pequenez incomparável.

De Lisboa à Ponta de Sagres, correu tudo bem, sendo que "bem" é andar contra tudo e todos, perder a noção do que é uma linha recta, pisar pernas e braços e ombros e coxas e tudo o que ampare desequilíbrios -aproveito desde já para deixar um conselho a quem vá embarcar: engordem! É muito menos doloroso ter chicha e bater em tudo quanto é parede e esquina, do que não a ter e entalar a pele entre o osso e o encosto destrambelhado-, ter que aprender a não acordar estremunhado e dar uma cabeçada na cama de cima, ter que aprender a entrar na cama de cabeça, porque se se for de rabo nunca mais se dá a volta e arriscamo-nos a ficar entalados em posições constrangedoras, e toda uma panóplia de situações que deixa quem está habituado ao chão dançante à beira de um ataque de riso. Se forem como eu e se se rirem de vocês próprios, então tudo bem, não há nada melhor do que aqueles primeiros dias!

Acabara eu de me deitar certa noite, e nos 3 milissegundos que mediavam essa acção com a de adormecer, pensei "é mesmo bom dormir embalada". Eis senão quando, a meio da madrugada, sou acordada por vigorosas sacudidelas. "Mas que raio?!", pergunta o meu Eu estremunhado ao meu Eu cheio de sono. Nenhuma resposta. Pensei "Raquel, já estás a ficar senil, mulher! Fecha os olhinhos e dorme, que o teu mal é sono". Pumba!, quase que sou atirada abaixo da cama. Pus-me à coca. "Quem anda aí?!" Nada... Sem deixar que a preocupação me invadisse, volto a fechar os olhos. Adormeci com as duas mão fincadas no lençol para não voar sarcófago fora, e de manhã depois da terceira pessoa a quem perguntei "sentiste as abanadelas hoje de noite?" o ter negado, calei-me muito caladinha enquanto sentia os olhares reprovadores pousarem em mim. Até um Oficial dizer "então, e esta noite? Dormiram bem? Passamos por uns quantos buracos! Esta estrada está muito má..." AHAH! "Vêem, insensíveis, como o navio abanou como... os navios abanam quando passam em águas tumultuosas?!" Quinzazero! A vocês dou quinzazero e de olhos fechados!

Ao largo do Algarve há demasiada calmaria. Até se tentar passar o Estreito de Gibraltar. São 13km de largura, um Oceano e um Mar a confluirem. Até aqui, nada que não se aguente. O problema, é quando surge o Levante. Ora o Levante é um safado dum vento que sopra pr'áqueles lados. "E safado porquê?", perguntais vós. Porque -e usando termos técnicos- vem de lá para cá, e nós queríamos ir de cá para lá. Peço-vos que imaginem: um navio de 67m de comprimento, de 500 cavalos de potência (uma doideira!), ondas de 4m de altura e vento de Força 8 (explico: há uma escala chamada Escala de Beaufort que "mede" a intensidade do vento. O máximo é F12, ou seja, furacão. Dá para ter uma ideia...). 'Tá? Pronto, então agora, mostro-vos o que acontece:

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A melhor maneira de perceberem o movimento é olharem para a linha do horizonte. Isso e a entrada de água no convés...

E acreditem que impõe mais respeito a cava da onda do que a altura dela em si. O espaço vago que ela deixa, é magnificamente assustador.

Desse dia há uma fotografia excepcional que eu não sei quem tirou. E digo isto porque não quero os créditos dela por mãos alheias, e porque há uma certeza muito grande de que não fui eu, porque eu estava sentada ali ao lado.

[Sim, é um printscreen do YouTube, porque ela faz parte de um vídeo de fotos também feito a bordo, daí a minha preocupação em pô-la aqui seja bem próxima do zero]


E pronto, esse tal de Levante foi o responsável pela nossa não ida a Ceuta, paragem que eu tanto gostava de ter feito pela simples razão de pisar solo Africano, por muito que Ceuta seja Europeia.

Responsável por isso, e pela percentagem assustadora de enjoos a bordo! Eu não enjoei (ainda hoje estou para perceber porquê...) e quando o balanço do barco era de frente para trás e vice-versa, dizia um Oficial "pronto, vai começar o movimento que faz enjoar toda a gente". Já a mim, não. A mim dava-me sono... Virava-se tudo a favor do vento a dar de comer aos peixinhos, e a Raquel encostada a um canto a dormitar. Eu tenho problemas, pela certa que os tenho, só pode!

E agora imaginem o que é tomar banho com o navio a abanar como vedes! Enquanto se consegue esfregar com o tronco direito, vai-se andando. Com mais ou menos toques nas paredes, com mais ou menos dança de pés, a coisa corre. Quando se tem que passar para as pernas, das duas, uma: ou nos dobramos, e caímos para a frente; ou levantamos uma a uma, e tombamos para o lado. Seja qual for a táctica escolhida, fica-se sempre com as pernas e os pés mal lavados e mais galos e/ou pisaduras consoante o balanço. É só isso e lavar as mãos. Porque enquanto que o chuveiro debita água para onde o viramos, a torneira é estática e é a água que se deixa levar, tendo nós que ir atrás dela. Não parece difícil, mas há que ter em conta que se alia isso ao mexer de pés e ao bater no lavatório todo molhado com a anca. E lavar os dentes? Tem igualmente o chão a fugir, os pés a (tentar) compensar, o lavatório cheio de água, os toques de anca e uma escova cheia de pasta e uma boca qual cão raivoso cheia de espuma, a tentar ir buscar água à palma da mão que anda atrás do fio de água, enquanto se dá toques de cabeça no espelho e se parte o nariz de encontro à torneira, sem falar de que nos entretantos desta luta pode muito bem alguém querer entrar na casa-de-banho, atirar com a porta numa tentativa de se segurar ao subir o degrau da mesma, levarmos um encontrão, continuarmos com a escova numa mão, a espuma a cair pelo queixo abaixo, e sermos mais uma a lutar a luta inglória. Mas é giro! Eu, pelo menos, fartei-me de rir. A sério! Eu acho que se alguém entrava na casa-de-banho enquanto eu estava a tomar banho, devia pensar que eu não estava sozinha (ou, estando, que tinha muito jeito para me divertir), porque eu ria-me mesmo. Já nas outras peripécias, ria-me e fazia rir, o que me apraz muito também. Nunca "estamos todos no mesmo barco" fez tanto sentido.