sábado, 31 de dezembro de 2011

3... 2... 1... 0!

Consigo perceber o porquê da festa de mudança de ano: é um ciclo que se reinicia. Mas não gosto de todas as expectativas e vontades e resoluções que se incutem a um novo ano, como se esse -qualquer que seja- que aí vem mude o que o que passou não conseguiu. É pedir demais às folhas do calendário.
Eu não balizo a minha vida, não limito projectos nem objectivos em intervalos de 365 dias. Daí que os empolamentos à volta das passagens de ano, tenho-nos por patetas. No entanto, da festarola já gosto. E como é de bom tom desejar tudo de bom neste dia, mais do que desejar boas entradas, desejo que o prato principal e a sobremesa sejam deliciosos!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pingo Doce, sempre tão cauteloso...

Há um Pingo Doce na cidade dos Arcebispos (e, segundo consta, de mais um par de P's...) que é excepcionalmente grande. A zona das bebidas alcoólicas, então, está melhor apetrechada do que a garrafeira dos nossos sonhos!

De bebidas brancas às da cor do ouro, das espirituosas às que mimam o espírito, das banais às excêntricas, há de tudo. E, perdido lá para o meio, como quem não quer a coisa, com ares de esquecido pelo repositor de stocks, embevecido, quiçá, pela empregada roliça da charcutaria, que se encontra logo ali à frente, surge...

...Um expositor de preservativos.



Pingo Doce: a tomar conta de gente festeira e embriagadamente atiradiça, desde... tempos em múltiplos de 9 meses. [Será?]

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Coisas de que eu gosto

De uma das procuras que mais visitas traz a este blog ser "faz me um filho" [assim mesmo, sem hífen...]

Amores, e o romance? A paixão, o arrebatamento dos sentidos; um jantarzinho, uma troca de telefonemas?! Não pode ser assim de chofre, vá... Um bocadinho de sentimento, por favor.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Reminescências do Natal II

Ou "o Postal dos Postais" (isto tem muita mais piada se se conhecer os vídeos originais. Mas não obstante!)


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Reminescências do Natal I

E saber que estive para partir o meu porquinho mealheiro quando o vi pela primeira vez numa manhã chuvosa de há um par de meses atrás, num mupi estacado no meu caminho.

Se eu soubesse que o que tenho sido satisfaz os requisitos para ser uma "menina bem comportada", não tinha suspirado tanto por ele de cada vez que o via...

Nem é bom relembrar a minha felicidade infantil quando abri a caixa do El Corte Inglés, convencidérrima de que de lá de dentro iam sair bombons...

sábado, 24 de dezembro de 2011

24 de Dezembro

A gerência deste blog vem por este meio -porque é o que faz mais sentido, porque podia muito bem enviar-vos postais, mas não sei onde vocês todos, que são para cima de muitos milhões, moram; podiam enviar-vos SMS's, mas não sei os vossos números; podia telefonar-vos, mas tinha o mesmo problema... E, além do mais, isto é um blog, internauta por definição, logo este é o meio por excelência de qualquer comunicação que se preste fazer-, deseja-vos um Feliz Natal, com mais Amor do que *Paz!*, porque esta época faz-se mais do primeiro do que do segundo, mas se for isso que vos galvaniza, amores, é como quiserdes, quem sou eu para vos privar da vossa felicidade.

Feliz Natal!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Às vezes preocupo-me comigo...

Como por exemplo agora, que tenho um tornozelo todo arranhado, do lado proximal e do lado distal (a sério que eu ia escrever "do lado de fora e do lado de dentro", mas soa tanto a ignorância e a impossibilidade física, que tive mesmo que optar por termos pomposo-olha-ela-com-a-mania-que-sabe. Peço desculpa...), com ar de ter sido maleita bem dolorosa, e eu não faço ideia de onde arranjei tal coisa...

É bom que eu não apareça aí morta a um canto, porque isto resultaria pela certa em teorias de constrições forçadas, aprisionamentos selváticos, algemas e demais apetrechos limitadores do movimento, e eu quero é a verdade acima de tudo, não fait divers a empoeirarem o olho perscrutador dos investigadores!


(que coisa mais mórbida, mulher!)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pai Natal, seu safado!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Sentido de observação tendencioso

Passo dum cabelo com meio metro de comprimento para uma jubinha de pouco mais que qualquer coisa, ninguém dá conta.

Pela primeira vez, do alto dos meus muitos anos, uso um eyeliner. Ninguém vê, ninguém repara.

Vou jantar com quem não convivo quotidianamente, e só os ouço perguntar: "Ela come sempre assim?!" [Sim, eu sou um pequeno alarve que, vai-não-vai, não pode dar sangue por peso insuficiente...]


Estou em crer que entre uma tatuagem no meio da testa e um micrómetro de alface num incisivo, chamavam-me à atenção do segundo...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quando abre a caça ao hipopótamo?

Vejo-vos a fazer greves, reivindicações, protestos e paralisações. Porque vos tiram os subsídios, porque vos baixam os salários, porque sobem a inflação e o IVA, porque diminuem os apoios e as pensões.

E contra a Popota, não vos vejo fazer nem dizer nada!

O Continente tinha a Leopoldina, um pássaro alto, bem-disposto, aventureiro, que despertava o gosto pela descoberta; e o Mundo Encantado dos Brinquedos, onde havia reis, princesas, dragões, porque há lutas que terão sempre que ser travadas, e porque o bem acaba sempre por vencer, havia heróis de banda-desenhada e o interesse pela leitura, havia pulos, saltos e muitos trambolhões, porque quando se é puto é-se resiliente mais do que resistente. E tudo isso, porque os brinquedos eram a nossa maior alegria.

Agora, o Continente tem uma hipopótama assente em duas patas, cor-de-rosa que mete dó, oca que nem um cano da água, porque lhe interessam purpurinas e brilhinhos, vestidos curtos e danças demasiado requebradas até para os cabarés do Moulin Rouge, fama e exuberâncias, e ninguém, NINGUÉM, pais, avós, associações pelo interesse das crianças e da preservação da inocência e da infância, se insurge contra isso!

A minha infância encheu-se de Betadine nos joelhos e de detergente para as bolas de sabão. Agora, de cada vez que vejo uma miúda com botas até ao joelho, pulseiras achincalhadoras e vontades de pintar olhos, unhas e lábios, só me apetece chorar. Por ela, porque vai haver um dia em que vai ser grande, e não vai saber o que foi ser pequena. Vai haver um dia em que não vai sentir que cresceu, e não vai poder voltar às reminiscências e memórias do passado. Vai haver um dia em que vai ter filhos, e não vai saber deixá-los andar, e sujarem a roupa, e esfolarem os joelhos, e abrirem sobrolhos em piruetas destrambelhadas [caso real], não vai saber deixá-los crescer e aprender as coisas mais importantes.

Sinto que estamos a passar o ponto sem retorno, e ninguém quer saber. Digo muitas vezes que tempos difíceis, viveu a minha avó, que teve 10 filhos e passou uma Guerra Mundial, com alimentos contados e senhas para os ir levantar, e teve que fazer 4 deles fugir à socapa do país para não irem para o Ultramar, e conseguiu criá-los a todos, e nenhum se queixa da sua infância (antes pelo contrário), e o quanto é delicioso ouvi-los falar desses tempos!

A maior crise que se vive agora não passa pelo défice nem pela periclitância do Euro. A maior crise dos dias que correm, é a crise de valores. Pior do que valer tudo, agora valem coisas que eu tenho por execráveis. Veja-se o exemplo da Popota...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ai a minha memória...

De onde é que eu conheço isto?!




Ah, já sei!!! Do plágio que a Optimus fez! Boa... A fazer de nós parvos...

Para quem precisa dos consumidores, abusas de car*lho...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Raquel: a ser hipster muito antes disso ser moda


Amores, o livro que vocês estão a ler, fui eu que o escrevi...

domingo, 27 de novembro de 2011

OK, esta é mesmo gira!

E diz-me assim o álcool: "Já sei! Pega no telemóvel! Que mal poderá daí advir?!"

Ai, bom-senso, bom-senso, que és tão fraco...

sábado, 26 de novembro de 2011

No Bar Académico aqui na terrinha


"Jantar anti-crise

€10

Bebe para esquecer"


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Na nossa cidade, a melhor Faculdade/ É Ciências, com certeza

Sair às 19h30 da faculdade é chato.
É noite escura; as horas do dia acumuladas até então, fazem deles dias estupidamente longos; chega a ser pior quando a produtividade está ali, toda oferecida, a roçar-se no zero; implica jantar tarde.
Mas tem, no entanto, o brilho da lua, ainda mais incrível quando, todo pujante, se lança de encontro a janelas espelhadas, em momentos fotográficos inesquecíveis; tem o frio gélido na cara que nos faz sentir vivos; tem uma cidade lambida pelos tons de amarelo dos candeeiros.

Mas melhor, muito melhor do que isso, é ir a passar aos Leões -aos nossos Leões, aos meus Leões-, e ouvir cantar orgulhosamente envolvida em negro e azul-bebé, a música mais arrebatadora delas todas.


Ciencito Aluno - Tuna Javardémica de Ciências


Ribomba cá dentro de tal maneira, que me continuo a arrepiar de cada vez que a ouço.
Quem sabe, talvez, se com o medo de que seja a última...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Para a próxima, vou antes ao oftalmologista

Devia ser proibido haver cabeleireiros contíguos a lojas de ferragens. É que tenho para mim que me enganei na porta! É, pelo menos, a explicação mais plausível que me surge de cada vez que me olho ao espelho.

Vale-me a parca consolação de ser uma das raríssimas miúdas que por aí andam, de cabelo curto. Parece pouco, eu sei, mas sou do contra, e gosto mesmo é de primar pela diferença. Nem que para isso (por isso?) tenha que parecer uma avestruz assustadinha...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

De volta à Fisiologia

Aula de Histofisiologia Animal. Tema: Sistema Reprodutor e Sistema Urinário (que não vai importar para o caso). Modelos à escala (em plástico... [tem prós e contras, mas não vamos entrar por aí]) para ver e desconchavar, e tudo e tudo e tudo.

Várias coisas podem acontecer numa aula do género, porque se uns de nós já cresceram (consta que os há, não sei. Para mim, é mito), outros há que, ainda que não tendo crescido, conseguem disfarçar muito bem, e mais ainda há daqueles que têm o risinho nervoso fácil, e ver o aparelho reprodutor do sexo oposto em moldes de plástico mexe-lhes com, quiçá, a própria genitália.

Parecia tudo muito calmo, quando de repente, momento de puro pânico: um jovem macho pega no seu aparelho -salvo seja-, e fica perdido sem saber onde está o testículo. O tio Freud deve ter dado 20 ou 30 cambalhotas na tumba, pois que este menino já há muito passou dos 3/ 6 anos e não explorou o suficiente. Eu própria fiquei parvinha de todo, porque até eu já estive no 8º. ou 9º. ano, e se não fosse por mais nada, só por aí já sabia, que bem sei que ensinam.

Mas aquilo lá passou (pode parecer mentira, mas a Professora foi lá para a beira dele explicar-lhe tudinho), e eis que o dito aparelho me chega às mãos. Lá deixei a minha curiosidade mexer à vontadinha, que se há coisa de que eu gosto, é do conhecimento, e sempre ouvi dizer que se vê bem melhor com a ponta dos dedos (fui parvalhona, mas a verdade é que estes modelos dão para abrir tudo e mais alguma coisa, que mais realista só mesmo se sacassemos um dito cujo ao seu dono. E ninguém quer isso...). Perdida que estava (porque às vezes perco-me, nada de particularmente excepcional devido à situação...), sinto alguém chegar-se à minha beira e por lá a quedar-se. Pensei "Raquel, deves-te estar a portar mal..." Afastei de mansinho as mãos da coisa e olhei de soslaio sobre o meu ombro. Ao meu lado estava uma jovenzita (que na semana passada, e tendo nós um protocolo que tem tanto de simples como de espectacular para se "ver" as válvulas venais, me disse horrorizada "ai, veias, não! Faz tu sozinha que eu não posso com veias!"), me pergunta "Posso ver também?" Rodei a cadeira, fiquei de frente para ela e disse-lhe: "Primeiro, não gosto de partilhar; segundo, OLHA QUE ISSO TEM UMA VEIA MUITO GRANDE!!! Vê lá que ela não te faça mal..." Pus-me a andar dali para fora, porque se é verdade que sou egoísta, não é menos verdade que a Professora já me tinha assustado o suficiente quando explicou toda incompreensivelmente excitada que dos milhões (milhões!) de oócitos que temos no nosso 4º./ 5º. mês de vida intra-uterina, restam-nos umas poucas centenas (poucas!) até à menopausa, e o relógio começou a tique-taquear, e eu estava ali num momento íntimo, circunspecto, a explorar a coisa, e há alturas em que uma gaja não deve ser importunada, sob pena de reagir mal, ora pois claro.

De ressalvar também, foi o interesse demonstrado pela classe XY no número 3 do modelo feminino que não era nada mais nada menos que o clítoris. Folgo em saber que todos tomaram nota da coisa e que os meninos da minha turma estão a fazer-se homens à séria e que acontecendo que não se saiba onde é o testículo, já não se perde tudo!
O ponto G, é que não vinha indicado. Mas também, deixemos qualquer coisa para trabalho de casa, a Faculdade não é a Escola Primária, a papinha não vem toda feita. Sejam cientistas, investiguem!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

La Cucaracha

Existe agora (ou se não é de agora, só agora é que dela tomei conhecimento...) uma nova técnica de amplificação de cópias de DNA a partir de uma quantidade minúscula (e quando digo "minúscula", é mesmo minúscula, na ordem das 0,000000001 g (a ver se não me enganei nos zeros...)) de material biológico (muito útil, por exemplo, na Biologia Forense), chamada "Low Copy Number".

E de cada vez que ouço alguém referir-se a ela, na minha mente desenha-se isto:


Loco Pi Number!!!


E, tem dias, em que chega a ser um estado irreversível...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sugestão de apresentação


A sério, Pingo Doce?

Quando se abre a garrafa, a água não cai cristalina e límpida, percorrendo rochedos cobertos de musgos e afins, recortados numa paisagem verde, fresca e luxuriante?

Mas podemos, no entanto, abri-la, e seguindo a sugestão, ir ao limite de um precipício e deixar a água correr, fazendo nós mesmos uma pequena cascata?

A sério, Pingo Doce?!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Na FCUP é possível! V

Na FCUP é possível o alarme de incêndio desatar a tocar -não, a berrar!-, e a vida continuar , normalíssima como até então, "nada de mais, só um alarme a tocar -não, a berrar!-, ele eventualmente há-de parar"...

...E começar a cheirar a queimado uma hora depois...


Detectores de incêndio na FCUP: não é preciso fumo para haver fogo.



Voltei, voltei
Voltei de lá
Ainda ontem estava em França,
E agora já estou cá!

Mentira. Não estive em França ontem coisíssima nenhuma. Mas qual melhor altura para citar Dino Meira, que não depois de um interregno de para cima de muitos dias, aqui no blog? Nenhuma, pois!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Raquel resolve: Problema 7

"[...] Se uma mulher sensível, com um pai insensível, tiver filhos de um homem sensível, que já tenha tido uma filha insensível com outra mulher, qual é a probabilidade: a) do primeiro filho deste casal ser insensível; b) do segundo filho ser insensível; c) de terem uma série de três filhos em que os dois primeiros filhos são sensíveis e o irmão mais novo é insensível."

Eu acho que uma mulher sensível com um pai insensível já deve ter carpido muito pela vida fora e faz muito bem escolher um homem sensível. Se o dito cujo tem já uma filha insensível, é questão de lhe dar uns quantos correctivos educacionais, e pode ser que a coisa mude. Além de que, o facto de ter uma filha per se, dá logo garantias de ele não ser demasiado sensível, o que pode poupar a muitas chatices aquando da festa do 28.º aniversário de casamento em que lhe salta a tampa e ele se lembra de confessar perante todos que a sensibilidade não é um defeito, é um feitio, e fica bem mais chique com plumas, lantejoulas e purpurinas...
Acho só bastante importante que refiram que o "homem já tenha uma filha com outra mulher", porque isto agora anda pr'aí muito tubo de ensaio hormonalmente excitado, muita zaragatoa atiradiça, e convém explanar bem a situação.

Respostas:
a) A probabilidade do primeiro filho ser insensível depende do tempo que o puto passa com a irmã partilhada pelo lado do pai.

b) A probabilidade do segundo filho ser insensível, depende da nabice dos progenitores, porque à primeira cai quem calha; à segunda, cai quem quer; e à terceira, meus amores, caiem os mancos e os coxos, e enquanto não arranjarem umas muletas, não há nada que vos valha!

c) A probabilidade de terem uma série de três filhos em que o mais novo, ao contrário dos outros dois, é insensível, depende da promiscuidade da mãezinha. É preciso cuidado com isso, porque acaba sempre por se descobrir tudo!


Às vezes pergunto-me se não seria melhor comprar Lux's e Cara's e demais literatura do género, em vez de estar a gastar o dinheiro em propinas e fotocópias. É que, no fim de contas -e aparentemente-, tudo se resume ao mesmo: fofoquices escarafunchadas sordidamente...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Expectativas, ilusões, e demais complicações

E eu a achar que a "Escolinha Creoula" nos preparava para tudo. Que os solavancos da vida iam ser todos facilmente transponíveis, que os soluços do Mundo iam ser todos facilmente superáveis, que os abalos do chão e os buracos das estradas e as vias sinuosas iam ser todos inconstâncias passageiras, eis que entro num bus, ele arranca antes de me conseguir segurar, dou dois toques de rabo, um de anca, e três encostos vergonhosos aos utentes cativos, e vejo que afinal a confiança que trouxe saiu gorada.

STCP: a fazer o Levante parecer um menino, desde 1946.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ciências, eu te adoro!

Porque não se deve só falar do menos bom em jeito de crítica, mas também do melhor como quem dá os parabéns pelo facto, quero fazer saber que estou maravilhada com a FCUP, por ter nomeado um anfiteatro de "Slb"(*). Assim, não só não custa ir às aulas, como até apetece!

Um bem-haja, FCUP!


(*) Em bom abono da verdade, é "Slbrt", mas é complicar desnecessariamente, e como não sei o que sugnifica o "rt" (tão-pouco o "Slb" neste contexto, convenhamos...), acho que é claramente desprezável, naquela base dos algarismos significativos, porque se não queriam que eu fosse assim, não me ensinassem coisas e ficassem à espera que eu as não usasse na minha vida!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Bem-vindos de volta às viagens regulares nos urbanos da CP

Há uma zona nos comboios urbanos do Porto que está disposta da seguinte maneira: porta - conjunto de 4 bancos - fole - conjunto de 4 bancos - porta.

Entram duas senhoras que, se fossem personagens de uma estória que eu escrevesse, seriam duas amigas reformadas sem netos para ir buscar à escola, acabadinhas de chegar da confeitaria mais próxima que tivesse candelabros de vidrinhos no tecto, que essas mais modernas de agora, com os seus focos e tectos falsos são impessoais e feitas só para ganhar dinheiro, que já não há cuidado com as pessoas, somos tratadas como "mais um", a despachar!, depois de terem lanchado uma torrada em pão saloio e um chazinho de tília, servidas pelo sempre paciente Sr. Alfredo, empregado da casa há anos, mais calmo que um panda sedado, depois de uma ter cortado na casaca de todas as jovens de hoje em dia, que passavam de ombros à mostra e calções curtos, e de todos os jovens de hoje em dia, que passavam de calças rasgadas e t-shirts coloridas, e de a outra ter concordado apenas, pois que remédio, que mais não conseguia fazer, ainda que estivesse tentada a dizer que não é bem assim, é deixá-los andar, que até dão mais cor aos dias, livra-te mulher!, que arriscas-te a perder a parceira do bridge das Quintas-feiras, entram, então, por uma dessas portas. A mais diplomata entra no banco que logo se lhes apresenta, e diz-lhe a outra "vamos antes para ali", apontando para o conjunto de bancos seguinte. Pensei para mim -porque ainda não tinha mergulhado na literatura, que vidas dos outros, a interessarem-me, só mesmo as que se desenrolam nas letras de um livro-, "a senhora não quer ir de costas", quando ela argumenta a ordem com um "porque ficamos mais perto da porta".

Engasguei um sorriso com a bolacha que estava a comer, e senti um abraço do quotidiano enquanto me dizia "por aqui fiquei enquanto foste e vieste, e por aqui vou continuar. Bem-vinda de volta!"

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Creoula - parte IV "As Sensações"

Imaginem um tubo de ensaio. Dentro desse tudo estão vidas já criadas e consolidadas, construídas com todas as peças que foram encontrando ao longo do tempo que por elas passou. A esta incrível diversidade, juntaram-se-lhes denominadores comuns: o tempo, as situações, os momentos, os imprevistos, o espaço.
O que temos, é aquilo que, na voz de quem sabe no-lo foi dito quando ainda mal déramos conta do que se passava: 40 viagens individuais e não uma só.

A minha, portanto, posso então dizer que a senti como sendo impactos e percepções, construções e adaptações, vivências e tudo mais que até podia acontecer em dias vulgares e "normalizados" (mais do que "normais"), mas em velocidade mach 3. Explico-me: não ponho em dúvida que, ao longo da minha vida futura, fossem acontecer situações que exigissem de mim o mesmo, mas nunca, nunca! com a intensidade que o Creoula imprimiu. Jamais me sentiria tão capaz de as resolver, de as absorver, de sorver o maravilhoso e de encolher os ombros de modo altivo face ao menos bom.
Desta viagem, não saí diferente. Sou eu mesma, sempre eu, sempre igual, mas com outra consciência do que consigo atingir. Mas, acima de tudo, aprendi o que muitos não aprendem numa vida inteira. E, como frente a tanto que todos os dias via e sentia, dizia, "se não fosse por mais nada, só por isto já valeu a pena!" E sim, esta viagem fez-se de "istos" que valeram muito a pena.

Uma das melhores sensações é a de "conduzir" o navio. Ter o leme nas mãos e sentir-lhe a robustez. Acrescido a isto, o leme é uma das zonas de onde melhor se percebe o movimento do navio, porque se tem uma visão quase desimpedida para o mesmo (da popa para a proa, vulgo "de trás para a frente").
Tive a sorte de estar ao leme na altura em que andávamos não aos círculos, mas dentro dum quadrado imaginário, à espera de melhor humor do Levante, para passarmos o Estreito. Chegados à "aresta" do quadrado, é necessária uma viragem de 90.º, e sentir o navio a virar, vê-lo a inclinar-se na água, ver as velas cederem às rajadas de vento que se começavam a sentir de outra direcção, olhar para o radar e para a bússola e ver os graus passarem, é incrível!

No lado oposto, na proa, descobri certa vez, e se bem me lembro, à conta duns golfinhos que apareceram, que era o melhor sítio para injecções de adrenalina, ao jeito de divertimentos de feira popular -é uma boa analogia, mas não tem nada a ver...-. Tenham presente os balancés e o movimento deles, e percebem o que digo. Nas extremidades, sente-se muito mais o movimento, principalmente o descendente. Ficámos (eu e um outro viciado naquele sensação) um horror de tempo, naquele dia (que, isso sim, lembro-me, foi quando estávamos a passar ao largo do Algarve, quem sabe até já ao largo de Huelva ou mesmo Cádiz), ali inclinados borda fora, a sentir a leveza ímpar que nos levava de encontro ao mar, e quando parecia mesmo que lhe íamos tocar, o amparo no peito, como que um abraço, puxava-nos de volta acima, à tona da água, ao flutuar que pouco durava pois que logo a seguir vinha mais uma onda encorpada que deixava para trás o fosso para o qual o Creoula nos atirava e salvava logo de seguida.

A proa é o local do vigia. Há um sitinho privilegiado para essa tarefa, mas há também o telhado duma das entradas para o interior do navio, que eu sei que tem um nome, mas que agora me escapa..., no qual ficávamos muitas das vezes que essa função nos competia. E daí, víamos os 360.º de mar à nossa volta, o horizonte a separá-lo do céu, dissessem-me que estávamos dentro dum souvenir daqueles que se abana e se entontecem pseudo-floquinhos de neve, purpurinas ou o que seja, e eu acreditava. Tenho um vídeo, mas não é de longe e muito menos de perto, fiel ao maravilhamento que se sente ao se estar lá, ao nos darmos conta daquilo. E eu queria ter subido muito mais alto para, sem ter que rodar sobre mim, ver a curvatura da Terra.

video

Uma sensação mais táctil do que romantizada, vá..., é a sensação de chamemos-lhe viscosidade, não o sendo, de tudo o que é lambido pelo vento marítimo. É uma humidade inigualável, que se entranha no cabelo, envolve as pernas, os braços, abrilhantando-os, calça as mãos, impossíveis que se tornam de alguma vez estarem lavadas e limpas. E está por todo o lado. E, se dúvidas houvesse, saberíamos instantaneamente, mal saíamos para o convés, que estávamos no meio do mar.
E quantas vezes é forte e frio, e vem contra a cara, e chapinha contra o costado. Mas, às vezes, acalma demasiado o mar. Faz da nossa passagem uma perturbação insipidamente efémera, contrastante com o carácter salgado que tantas lágrimas, segundo o poeta, temperou.

No interior, mais uma vez na altura do Levante -acho que ele se está a tornar monopolizador, o safado!-, estava eu sentada à entrada da Biblioteca que, como todas as portas, relembro, tem um degrau, e olhei em frente para uma escotilha. Era de madrugada, pouco depois das 7h, e ainda estava aquele tom azulado no céu, de quando o Sol está mais ensonado do que quem madruga, e parece-me ver água. Estranhei, pois que a água nunca andava ali por cima (ou, melhor, o navio não nunca andava tão abaixo da linha de água), e deduzi sem sombra para dúvidas que devia ter lavado mal os olhos e o sono que não tinha ficado na almofada me estava a pregar partidas. Pisquei os olhinhos, semicerrei-os e sim, era mesmo água. Naquele momento, estávamos debaixo de água, e não sei explicar porquê, sorri e fiquei encantada com o facto. Quando fizerem uma "Universidade Submersa no Mar", estou lá!

Mas nem todas as sensações são boas. Há aquelas, que mesmo tocando cá dentro, fazem-no na parte má do assombro. Neste lado do espectro, tenho a sensação de impotência ao ouvir no rádio um Mayday. É incrível, porque pode estar uma turma de putos do ciclo a serem eles próprios, i.e., barulhentos, 2 tenores a fazer exercícios de aquecimento de voz, um baterista a treinar para o concerto que vai dar logo à noite, e um reco-reco a aparvalhar, que mesmo assim, quem trabalha na Ponte consegue ouvir o rádio! No entanto, um "Mayday Mayday Mayday", cala toda a gente, fica tudo de ouvido à escuta, a voz trémula que o pede desperta vontades de dizer "não te preocupes, já aí vou!", e saltar borda fora, mas a ligação está péssima, não se percebe o local onde ela diz estarem, as coordenadas não chegam até nós, o ECDIS não mostra o navio, não sabemos se é perto, se é longe, às tantas, no meio do ruído de estática cremos perceber um nome, procura-se no mapa, não existe, "Mayday, Mayday, Mayday", "Please, transmite your coordinates!", ouve-se que o motor da âncora avariou, não a conseguem subir, que estão perto dumas rochas e o mar está a ficar revolto e está a atirá-los de encontro a elas, são dois ocupantes, "Mayday, Mayday, Mayday", procuram-se soluções, não as há, "O que fazemos?", "Nada", dizem-nos ainda mais abatidos do que nós, "Mayday, Mayday, Mayday", finalmente no rádio o serviço de Busca e Salvamento de Ibiza faz saber que os vai acudir, isso quase que desanuvia o ar, mas é impossível, transmitem-lhes que têm que abandonar o barco, "abandon ship?!", pergunta a voz trémula, "Yes", diz uma voz autoritária, "You MUST abandon ship!", "but...", "You MUST abandon ship!", a dor que deve ser ter que sair, saber que tudo vai ficar por ali, que seja só o barco, mas lá se pensa nisso em alturas de aflição!, só posso imaginar o pânico que deve ser, abandonar soa a desistir, abandonar torna tudo mais real.
Não sei o desfecho da estória. Ninguém ficou a saber. Se a minha vontade mandasse, tudo se resolveu pelo melhor. E quero acreditar que sim.


Houve mais, muitas mais!, algumas impossíveis de arrancar de lá e contar, algumas outras só para quem lá esteve, umas poucas para uma meia-dúzia, talvez nem tanto, de sortudos que as ouvem da minha boca, mas todas elas minhas e inesquecíveis!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O verdadeiro sentido das coisas

Corria o ano de mil-e-qualquer-coisa -se bem me lembro- quando alguém inventou as passagens para peões para tornar mais seguro o acto de atravessar ruas. Impõem as ditas, portanto, uma rua, um pedestre e carros.
Ora hoje, capto no meu campo de visão um homem que queria ir de um aqui para um ali. Chega-se à passadeira, anda até meio dela e estaca. Pensei "pronto, perdeu o Norte! Já não sabe onde está, quem é, para onde quer ir!" Fica ali uns segundos com ar de perdido, roda sobre si, nunca deixando o seu ar aluado, e decide-se a voltar para o passeio de onde partiu, onde fica uns bons minutos sem que eu desse conta de que ele estava a micar a rua. Eis senão quando vê um carro chegar-se à zona da passadeira! Espera, espera, e quando a viatura está mesmo a chegar à passadeira faz-se ao caminho. O carro trava e ele lá segue segurérrimo de si, pois que usou e bem! uma passadeira.

É bonito, tão bonito quando se vê usarem as coisas para o que elas foram feitas!
É as passadeiras e os hospícios... Lindo!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Saudades, que saudades

Saudades, que saudades eu tinha do jogging à beira-mar!

Apesar do primeiro da época ter sido no 6.º dia de Setembro, não trocava o Agosto que tive pelos joggings estivais de outros anos, apesar dos piropos que vêm da praia e dos ciclo-PSP's na sua ronda de final de tarde. Até porque em Setembro, a marginal é só nossa.

Melhor, muito melhor.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Creoula - parte III "As Vergonhas"

Dona Flor ficou conhecida pelos seus dois maridos. Dona Raquel, como odeia ser tratada, ficará eternamente conhecida pelas suas vergonhas. Aonde quer que vá, leva-as consigo, porque a companhia que lhe fazem é tanta que Raquel acha que elas também merecem viajar e conhecer e tudo e tudo e tudo.


Acto I
Indicação cénica: Cozinha, manhã cedo (quarto das 8h às 12h), Raquel é posta a descascar alhos.

Há uma característica muito boa (entre outras extremamente boas) a meu respeito: na cozinha tenho muito jeito para pôr a louça na máquina (já tirar, nem sempre, já que pode calhar de ir parar ao hospital). Claro que também consigo lavá-la à mão, consigo mesmo fazer gelatina -mas leio sempre a "receita", para prevenir dissabores-; chá, mas nunca com ervinhas porque as quantidades e eu nunca nos demos muito bem; massa, mas só para mim porque os meus gostos são incomparáveis; e fiz uns mexidos divinais no Natal passado mas nunca mais me meto noutra não vá correr menos bem. Fora isso, é esquecer.
Ora de alhos, que sei eu? Sei que são muito bons para a circulação e maus para o hálito, e que vêm em aglomerados. Quer dizer, eu sei o que é um alho! Sei que é branco-amarelado e que impõem serem descascados para deles se tirar proveito. Quando me dizem "descasca estes alhos" eu "ya, tudo bem!", porque a Raquel nunca se nega a nada e não mostra nunca ignorância nem incompetência. Se não sabe, espreita disfarçadamente para quem saiba e resolve melhor ou, quase nunca, pior, a situação.
Aglomerado de alhos na banca à sua frente. Raquel não tem meias medidas e desata a arrancar os dentes um a um e a pô-los de lado, convencidérrima de que aquilo era descascar alhos.
Não sei se por ter dado conta da minha nabice, se só para adiantar serviço, um dos cozinheiros prostra-se à minha frente a, realmente, descascar alhos. Ao ver aquilo, Raquel tem micro-acessos de riso, que tenta que passem despercebidos tão bem quanto a azelhice que escancarou ali no meio. Pega então nos dentinhos que tinha posto de lado, a tentar que a imagem que passa fosse a de organização e não de falta de saber, e foi descascando-os enquanto engolia o riso da melhor maneira possível.


Acto II
Indicação cénica: Mar Mediterrâneo. Raquel, enfiada na água até um bocadito acima da cintura, presta-se a tentar usar um snorkel

O Mediterrâneo tem tanto de límpido quanto de salgado. Da primeira, advém a vontade de fazer snorkling e ver peixinhos e coisinhas lindas debaixo de água; da segunda advém a nula praticidade em mergulhar. Ora eu, que quando quero deixar alguém perdido de riso numa piscina basta tentar sentar-me no fundo da mesma, porque devo ser arraçada de ave e ter ossos ocos, e flutuo melhor que o bacalhau de molho, tive a ideia mirabolante de querer experimentar uns óculos e um snorkel, "porque não deve ser nada difícil, é só respirar pela boca!"
Pedi os apetrechos emprestados a um jovem do grupo, preparo-me toda -óculos desde a testa até ao lábio superior, snorkel preso nos dentes- e, prevenida como gosto de ser, tento respirar com a coisa, em seco. Perfeito! Mergulho então, já com imagens de cavalos marinhos amarelos e raias cinza metálico e polvos roxinhos na mente, o meu rabo é um fraco face ao sal e empina-se todo, troco as imagens de peixinhos pela de patos de "cabeça para baixo, rabinho para o ar", vá-se lá saber porquê, dou uma inspiradela pelo nariz, combato contra o meu próprio CO2, dou logo três ou quatro arfadelas pela boca, tento bater as perninhas para tentar minimizar os danos, atrapalhei-me toda e upa cá para cima. Olho em volta, na esperança de ninguém estar a olhar para mim, mas os óculos, para além de serem de plástico estão todos embaciados, penso "mulher, à segunda é que é!", volto a enfiar a cabeça na água, o rabo volta a ficar de fora e eu quero lá saber, quero é peixinhos coloridos, carai!, duas ou três arfadelas, quase me sinto sufocar com o meu próprio CO2, venho à tona, e vejo o dono dos artefactos a olhar para mim, a pôr-me a mão num ombro e a perguntar, com um misto de pânico e preocupação: "tu estás bem?". "Não!", disse num sopro enquanto tentava normalizar a respiração e o compassar do coração. "Tenta outra vez!", diz-me ele. "Achas?! Quase morri desta! Que raio de notícia dariam à minha mãe? 'Olhe, a sua menina morreu sufocada no meio do mar'! Deixa lá isso. Toma, vai lá explorar, e depois contas-me tudo!"


Acto III
Indicação cénica: Cobertas, meio da tarde mas escuro como breu, que havia gente a dormir. Raquel tenta chegar-se à sua cama para ir buscar os óculos.

Relembro, caso tenham esquecido, que eu dormia num espaço exíguo com mais 5 miúdas. Como se passam muitos dias no mar, longe de comodidades como máquinas de lavar a roupa, a roupa interior era lavada à mão e posta a secar em fios que atravessavam os 7mm de largura do corredor que separava os nossos beliches. Farta que eu estava de levar com cuecas e sutiãs na testa de cada vez que ia à cama, decidi-me a entrar no corredor semi-curvada para evitar os obstáculos (um ultraje, devo dizer, para todos os rapazes que me ouviam queixar da minha triste sina: "Mau, dizes tu?! Quem me dera levar com cuecas na cara de cada vez que me deito!" Adiante...)
Vou eu, já toda confiante na minha destreza em andar num navio em alto mar, entro na coberta, faço a primeira curva sem espinhas, curvo-me à entrada do corredor, vou feita touro, toda pujante e intocável e pumba! com a cabeça contra o traseiro da miúda do andar de cima, que estava apoiada com os pés nas camas de baixo. "¿Quién es?, ¿quién es?", grita ela atarantada.
Não lhe disse quem era, pois que me pisguei de fininho dali para fora para não tornar aquele momento mais confrangedor, que ainda ia haver mais convívio, mais dias ali enfiados, e eu dispenso mexericos. Quanto aos óculos, passei bem sem eles, e antes me tivesse dado conta disso mesmo mais cedo...

[para estas, pois que não tenho fotos, com certeza que não. E só posso esperar que não as haja...]

domingo, 4 de setembro de 2011

Creoula - parte II "A Personalidade do Atlântico"

Quem já passou férias no litoral Oeste de Portugal conhece o feitiozinho daquele que nos banha. Tanto está impávido e sereno, como se estrebucha todo e fica de mal com a vida.
Lá longe onde são poucos os que têm a sorte de o conhecer, ele tem mais tendência a mostrar-se bravo -a bem dizer, como se quer um Oceano que se preze de o ser-, até porque, e apesar de banhar muitas mais costas para além da nossa, temo-lo por Português, e Português que é Português é tendencialmente abespinhado.

Acresce ainda outro factor: o Sr. Vento. Ora quando o Sr. Vento e o Sr. Atlântico estão em sintonia, perfeito, içam-se as velas e até se chega ao destino antes do previsto. Quando se insurgem um contra o outro, temos o Creoulinha a balouçar, quem vai dentro dele a perder o centro de gravidade, uns quantos ainda à luta com o ouvido interno e as chatices que isso traz, e uma sensação de pequenez incomparável.

De Lisboa à Ponta de Sagres, correu tudo bem, sendo que "bem" é andar contra tudo e todos, perder a noção do que é uma linha recta, pisar pernas e braços e ombros e coxas e tudo o que ampare desequilíbrios -aproveito desde já para deixar um conselho a quem vá embarcar: engordem! É muito menos doloroso ter chicha e bater em tudo quanto é parede e esquina, do que não a ter e entalar a pele entre o osso e o encosto destrambelhado-, ter que aprender a não acordar estremunhado e dar uma cabeçada na cama de cima, ter que aprender a entrar na cama de cabeça, porque se se for de rabo nunca mais se dá a volta e arriscamo-nos a ficar entalados em posições constrangedoras, e toda uma panóplia de situações que deixa quem está habituado ao chão dançante à beira de um ataque de riso. Se forem como eu e se se rirem de vocês próprios, então tudo bem, não há nada melhor do que aqueles primeiros dias!

Acabara eu de me deitar certa noite, e nos 3 milissegundos que mediavam essa acção com a de adormecer, pensei "é mesmo bom dormir embalada". Eis senão quando, a meio da madrugada, sou acordada por vigorosas sacudidelas. "Mas que raio?!", pergunta o meu Eu estremunhado ao meu Eu cheio de sono. Nenhuma resposta. Pensei "Raquel, já estás a ficar senil, mulher! Fecha os olhinhos e dorme, que o teu mal é sono". Pumba!, quase que sou atirada abaixo da cama. Pus-me à coca. "Quem anda aí?!" Nada... Sem deixar que a preocupação me invadisse, volto a fechar os olhos. Adormeci com as duas mão fincadas no lençol para não voar sarcófago fora, e de manhã depois da terceira pessoa a quem perguntei "sentiste as abanadelas hoje de noite?" o ter negado, calei-me muito caladinha enquanto sentia os olhares reprovadores pousarem em mim. Até um Oficial dizer "então, e esta noite? Dormiram bem? Passamos por uns quantos buracos! Esta estrada está muito má..." AHAH! "Vêem, insensíveis, como o navio abanou como... os navios abanam quando passam em águas tumultuosas?!" Quinzazero! A vocês dou quinzazero e de olhos fechados!

Ao largo do Algarve há demasiada calmaria. Até se tentar passar o Estreito de Gibraltar. São 13km de largura, um Oceano e um Mar a confluirem. Até aqui, nada que não se aguente. O problema, é quando surge o Levante. Ora o Levante é um safado dum vento que sopra pr'áqueles lados. "E safado porquê?", perguntais vós. Porque -e usando termos técnicos- vem de lá para cá, e nós queríamos ir de cá para lá. Peço-vos que imaginem: um navio de 67m de comprimento, de 500 cavalos de potência (uma doideira!), ondas de 4m de altura e vento de Força 8 (explico: há uma escala chamada Escala de Beaufort que "mede" a intensidade do vento. O máximo é F12, ou seja, furacão. Dá para ter uma ideia...). 'Tá? Pronto, então agora, mostro-vos o que acontece:

video video

A melhor maneira de perceberem o movimento é olharem para a linha do horizonte. Isso e a entrada de água no convés...

E acreditem que impõe mais respeito a cava da onda do que a altura dela em si. O espaço vago que ela deixa, é magnificamente assustador.

Desse dia há uma fotografia excepcional que eu não sei quem tirou. E digo isto porque não quero os créditos dela por mãos alheias, e porque há uma certeza muito grande de que não fui eu, porque eu estava sentada ali ao lado.

[Sim, é um printscreen do YouTube, porque ela faz parte de um vídeo de fotos também feito a bordo, daí a minha preocupação em pô-la aqui seja bem próxima do zero]


E pronto, esse tal de Levante foi o responsável pela nossa não ida a Ceuta, paragem que eu tanto gostava de ter feito pela simples razão de pisar solo Africano, por muito que Ceuta seja Europeia.

Responsável por isso, e pela percentagem assustadora de enjoos a bordo! Eu não enjoei (ainda hoje estou para perceber porquê...) e quando o balanço do barco era de frente para trás e vice-versa, dizia um Oficial "pronto, vai começar o movimento que faz enjoar toda a gente". Já a mim, não. A mim dava-me sono... Virava-se tudo a favor do vento a dar de comer aos peixinhos, e a Raquel encostada a um canto a dormitar. Eu tenho problemas, pela certa que os tenho, só pode!

E agora imaginem o que é tomar banho com o navio a abanar como vedes! Enquanto se consegue esfregar com o tronco direito, vai-se andando. Com mais ou menos toques nas paredes, com mais ou menos dança de pés, a coisa corre. Quando se tem que passar para as pernas, das duas, uma: ou nos dobramos, e caímos para a frente; ou levantamos uma a uma, e tombamos para o lado. Seja qual for a táctica escolhida, fica-se sempre com as pernas e os pés mal lavados e mais galos e/ou pisaduras consoante o balanço. É só isso e lavar as mãos. Porque enquanto que o chuveiro debita água para onde o viramos, a torneira é estática e é a água que se deixa levar, tendo nós que ir atrás dela. Não parece difícil, mas há que ter em conta que se alia isso ao mexer de pés e ao bater no lavatório todo molhado com a anca. E lavar os dentes? Tem igualmente o chão a fugir, os pés a (tentar) compensar, o lavatório cheio de água, os toques de anca e uma escova cheia de pasta e uma boca qual cão raivoso cheia de espuma, a tentar ir buscar água à palma da mão que anda atrás do fio de água, enquanto se dá toques de cabeça no espelho e se parte o nariz de encontro à torneira, sem falar de que nos entretantos desta luta pode muito bem alguém querer entrar na casa-de-banho, atirar com a porta numa tentativa de se segurar ao subir o degrau da mesma, levarmos um encontrão, continuarmos com a escova numa mão, a espuma a cair pelo queixo abaixo, e sermos mais uma a lutar a luta inglória. Mas é giro! Eu, pelo menos, fartei-me de rir. A sério! Eu acho que se alguém entrava na casa-de-banho enquanto eu estava a tomar banho, devia pensar que eu não estava sozinha (ou, estando, que tinha muito jeito para me divertir), porque eu ria-me mesmo. Já nas outras peripécias, ria-me e fazia rir, o que me apraz muito também. Nunca "estamos todos no mesmo barco" fez tanto sentido.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Creoula - parte I "O Primeiro Impacto"

Não creio ser a loucura que move 40 pessoas a irem de livre vontade passar 20 dias em regime de exclusividade com gente que não conhece, 17 dos quais a bordo de um veleiro de mil-nove-e-muito-tempo-atrás. Por mim, posso dizer que sinto nas veias sangue de descobridores. O mar sempre me fascinou e o chamamento que ele gritou aos homens que nele quiseram navegar, também eu o sinto.

Nunca tinha embarcado, a não ser nos verões quentes da minha infância, num barquito de madeira a motor que, na praia que ainda hoje continua a ser a minha, ia até "lá fora" e voltava em pouco menos de nada. Chorava baba e ranho a viagem toda tal era o medo. Depois disso, só mesmo ir apanhar ondas para a zona dos surfistas num barco de borracha sem fundo e com 7 ou 8 em cima dele. Está bom de ver que quando me perguntavam se eu já tinha embarcado alguma vez, negava-o sempre, sob pena de me enfiarem num colete de forças a viagem toda.

Estranhamente, no dia em que embarcamos, não senti a ansiedade nem o nervosismo atacarem. Tinha muita vontade de entrar no navio, conhecê-lo, saber o que me (nos) esperava.
À primeira vista, é incrivelmente pequeno! É assustador estarmos todos perfilados, de mochilas às costas e expectativas nas mãos, e ver o que na altura pareceu um barquinho estreito e curto e saber que ia açambarcar com 90 pessoas.


Não sei se já entraram num navio e/ou se têm presente a prancha de acesso a ele. É estreita, coxa, abana e não é das coisas mais práticas de se andar em cima, ainda para mais se se leva uma mochilona às costas. No entanto, tudo correu bem, para grande espanto meu e das minhas vergonhas. Dentro do navio, o pânico adensa-se: o convés está cheio de cabos e amarras e semi-rígidos a ocuparem o pouco lugar disponível, e mais barquinhos de madeira (que agora sei serem os doris, dos tempos da pesa ao bacalhau), e já se sente uma tímida ondulação a querer mandar mais que nós nas nossas pernas. Mandam-nos ir pousar as trouxas à nossa cama, e só não tropecei na porta e pelas escadas abaixo porque salvei um passarinho da morte certa há anos atrás e fui finalmente recompensada. As portas do convés para o interior são altas. Embora com um degrau, dão-nos acima do joelho, sensivelmente. As escadas são a pique e os degraus estreitérrimos.

[a foto está tremida, porque eu era bem capaz de estar a tropeçar quando a tirei]

Os beliches são de três camas e eu, que não gosto de dormir na da baixo nos de duas por causa dos abafos que me dão, fiquei precisamente na de baixo num de três, que é para a terapia ser de choque e deixar de ser piquinhas.

[Não consegui apanhar os três beliches, porque o espaço é tão curto que não deu para melhor.
A minha cama é a de baixo. Convém frisar que esta foto foi tirada no último dia, daí o lençol estar todo arruinado (o que, aparentemente, não é desculpa, porque a de cima está impecável...). Mas não obstante!
De notar que as cortinas azuis do lado esquerdo são outro beliche, ou seja, eramos 6(!) miúdas num espaço onde desapertar o soutien é uma empreitada para a qual a melhor contorcionista asiática teria que treinar a vida toda, sem certezas de sucesso. E nós? Sim, nós conseguíamos...]

A saída de Lisboa é magnífica! Há lá vista mais bonita para a cidade, que a do Tejo! Passar por baixo da 25 de Abril com muito e muito trânsito lá em cima também é coisa para se deixar guardada por muito tempo na caixinha das memórias.
A única pena que tive foi não termos ninguém saudoso na nossa partida, a menos de uma mulher de um marinheiro e a RTP cujas reportagens se não viram, vo-las dou a conhecer agora: em directo (na qual somos "40 jovens") e em deferido (onde consta que somos "52 jovens", mas garanto-vos porque lá estive e sei, que das 10h da manhã para as duas da tarde, ninguém entrou no navio).

Tivemos logo que puxar cabos porque diz que o Creoula é um veleiro e os veleiros querem-se a aproveitar o vento, e entre berros de "entra com a boca" ou "segura a pena" e "folga o guardim", lá nos fomos sentindo perdidos. Parecia impossível alguma vez habituarmo-nos àquilo tudo. A coroar tudo, parecíamos uns bebedolas a andar aos S's, a ir contra tudo o que nos segurasse e amparasse. Mas, o que é delicioso, é ver os cuidados que os marinheiros têm com os cabos, o quão bem deles tratam.

As mesas têm rebordos salientes para que nada caia delas. Logo na segunda ou terceira refeição, rolavam pêssegos pelas mesas fora e chegar até elas com a sopa toda dentro da malga era razão para festejar.


Tudo tem que estar preso, fechado, protegido contra o caprichos do mar.

A primeira imagem que tive do Comandante do navio foi à noite. Estava eu na Ponte, que é o local dos aparelhómetros todos do navio (radares, sistemas informativos de todo o género, e etc), ao meio da qual há umas escadas. A páginas tantas, e enquanto um Tenente nos (a mim e a outra coleguinha do meu grupo) explicava as funções de todos os traços luminosos e afins, ouve-se uma voz vinda das profundezas "Boa noite. Tudo bem?" Eu viro a cabeça para trás, e vislumbro uma sombra corpulenta emergir da luz, com um cachimbo numa mão e envolta toda ela num casaco vermelho, que se houve noite fria, foi aquela. Fiquei boquiaberta e maravilhada. O Comandante! De vermelho e a fumar cachimbo!!! Podia ser melhor? Não, não podia.

A primeira sensação que se tem na cama é, pela certa, a que enquanto bebés temos num berço a ser embalado. É delicioso. A menos quando se vai a passar a ponta de Sagres, que quase se cai abaixo da cama, e quando tivemos que fazer tempo à entrada do Estreito de Gibraltar, que o vento e o mar estavam terríveis e não nos deixaram passar.

Noutro dia, contar-vos-ei como é tomar banho em alto mar e usar a casa-de-banho, e as tormentas do Levante.

sábado, 27 de agosto de 2011

Com os pés bem assentes na Terra

Voltei.

Nem sei que vos diga. Conheci-me melhor, conheci os meus limites, vastos, agora que os sei, como o próprio mar. Viajei em meio líquido, dissolvi-me em sal, fundi-me com o navio com os meus pés descalços no convés. Não houve mais nada durante todos aqueles dias, o Mundo éramos nós. O Creoula ensina-nos a relativizar tudo. Senti-lhe a força e o poder do mar no leme, icei-lhe as velas, safei-lhe cabos, poli-lhe "amarelos". Ouvi-o gemer à força das ondas que, impelidas pelo Levante, não nos deixaram ir a Ceuta. Nunca tive medo. Apaixonei-me por ele.
Dormi num "sarcófago", único lugar só meu, que à noite me embalava ora doce, ora rispidamente, que o Atlântico tem muita personalidade.
Dormi de olhos abertos quando devia estar acordada, comi alarvemente, tropecei nas minhas pernas cuja vontade própria se dissipou no embalo do mar, estou negra de pisaduras e preta do Sol.
Vivi.

Pode ser que um dia vos conte mais pormenorizadamente certos momentos, sem nunca vos deixar esquecer que o que se passa no Creoula, fica no Creoula. Agora, ainda me sinto como parte de uma relação que acabou, e preciso de tempo para fazer o meu luto.

Deixo-vos só um lipdub que filmamos a bordo. A música faz parte da banda-sonora que nos acompanhou quando nem as ondas de rádio chegavam onde estávamos.
Peço só a quem me conhece e reconhece no vídeo, que contenha os comentários, sim? Que eu conheço-vos de volta, e puxei muito pelo físico a bordo, e dou-vos um belo dum arraial de porrada se quiser.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Heróis do Mar

Julho de 1497, Caravela Bérrio - Vasco da Gama empreende o Caminho Marítimo para a Índia

Abril de 1500, numa Caravela qualquer - Pedro Álvares Cabral, por nabice ou matreirice, engana-se e vai ter ao Brasil

Agosto de 2011, NTM Creoula - Raquel põe a Marinha Portuguesa em alerta máximo, numa viagem até terras Mouriscas, Mediterrânicas e Sul-Europeias



Uma viagem desta envergadura exige preparação. Já tenho comigo as braçadeiras da Heidi, e tenciono embarcar com elas postas, só assim para marcar posição: "quem é a parvalhona do grupo?" Pumba, é aquela das braçadeiras.

De mais a mais, levo o "Moby Dick" para ler, a "We All Live in a Yellow Submarine" para despertador e a banda sonora do Pirata das Caraíbas para momentos de descontracção.

Quando chegar, conto ter a pele tisnada pelo sol e pelo sal, uma tatuagem no braço esquerdo em forma de âncora, sabor a rum na boca enquanto dela me saem "Aye's", "Matey's" e soluços vergonhosos, e estórias, muitas estórias para contar.

Até ao final de Agosto, me hearties!

(não sei porque comecei isto com os Descobrimentos e acabei com Piratas...)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Quando eu começo a espiralar

Facto: eu tenho um sinal na coxona, e volta e meia quero mostrá-lo ao dermatologista para que nenhuma ruindade se atreva a apoderar-se dele.

Problema: que cuecas vestir para ir ao dermatologista.

É que... é um dermatologista! Já não acho muita piada a ter que me despir para quem não está nem aí (e nem convém que esteja), mas há especialidades e especialidades. O senhor quando escolheu a dele não pensou nas cachopas que têm sinais nas coxonas. O senhor estudou para ver juventude borbulhenta, não cachopas despidas! E, vai daí, fico sem saber. Umas sóbrias, é muito deslavado, recuso-me a usar disso; umas coloridas, parece que fui apanhada de surpresa; umas sexy, ainda o distraio, e quero mesmo é que ele olhe para o sinal; umas do tempo da minha avó, não tenho. E não pensem que isto é fazer uma tempestade num copo de água! Porque, imaginem o cenário: eu, de pé, sem calças e de costas para o homem, a pensar em sombras de palmeiras, horizontalidade e relva acabada de cortar, enquanto trauteio interiormente a marcha fúnebre do Chopin. O homem, sentado com a cabeça ao nível do meu rabo com uma mão no aparelhómetro (no que vê os sinais, oh gente imoral!) e a outra vá-se lá saber onde.

Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais paranóico do que eu?

sábado, 30 de julho de 2011

Raquel vai à igreja

Se me confessei? Não, ganhem juízo. Tão-pouco acredito que isso expiasse os meus pecados. "Então não acreditas em pecados!" Não amores, acredito, porque até para o bom-senso os há, não precisamos de nenhum Messias que no-los dite para uma tábua no deserto. Mas vá, ao que interessa! Divagadores, pá...

Não direi que são o melhor sítio para ouvir música clássica -que a música clássica ouve-se bem em qualquer lado-, mas que as igrejas têm o seu quê de fantástico, têm. A acústica é óptima, e há algumas que a isso, aliam uma construção calmante, arriscarei dizer. Há as paredes de pedra, os tectos altos, o chão frio. Hoje, houve também a Orquestra da Juventude de Bremen.

Tocam bem que se fartam, e o maestro, bem!, o homem não se limita a vibrar com a música, ele vive-a! Eu nunca vi tal coisa! Achava eu que em allegros bastava a vigorosidade da percussão, bastava a intensidade do sopro, bastava o acelerar do arco nas cordas. Que em adagio bastava a carícia do ar no bocal, a meiguice dos pêlos de cavalo nas cordas, o sono da percussão. Chega, mas não basta. É preciso o Stefan Geiger para tudo ganhar outro sentido, outro peso, outra grandiosidade. Ele até tem o cabelo cortado propositadamente para o seu ofício, certamente! Lembram-se dos míticos cortes "à tigela"? Pronto, é do género. E é uma delícia vê-lo ganhar vida a cada compasso mais acelerado.

E as expressões do senhor? O menino da percussão (no qual eu colei, aproveito desde já para pedir a quem de direito, para atentarem na colocação dos músicos, porque eu sou facilmente "distraível" e há visões que me fazem divagar muito...) e que está em local privilegiado face ao maestro, volta e meia lá se ria, porque são expressões e trejeitos absolutamente desarmantes.

E, sabíeis vós, que nós temos um compositor Português que, do alto dos seus 22 anos (é que já ninguém tem 22 anos, por favor...) já faz furor no estrangeiro, e estreou hoje uma obra? Não me deliciou, mas a interpretação foi avassaladora!

Enfim, a juventude não está perdida, afinal... E eu, estou com Mendelssohn na cabeça.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Mercearia

Diz a dita mercearia, com um cartaz afixado na porta: É favor deichar as mochilas à porta.

Meio da tarde, cheio cheio cheio, que se a taxa de natalidade diminuiu, não foi certamente há 13/17 anos, que eles são mais do que cogumelos proliferando-se em sítios húmidos, salvo seja!

Diz a Raquel: Aqui é tudo bom... Menos a gramática.

E pumba, a juventude toda escancarada a rir! Nunca pensei que eles percebessem a piada...

Raquel, a divertir o povo desde... tempos imemoriais.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Gente iluminada

Há umas semanitas atrás, veio no jornal da terra que a Câmara aprovou uma medida para poupar dinheiro: apagar candeeiros públicos alternados, ou seja, a cada dois, um era apagado, permitindo assim haver luz na via pública, mas gastar-se menos.

Dito e feito. Chegada a escuridão celestial, acendem-se os candeeiros mas não todos.

Meio da tarde na terrinha: uma rua com os candeeiros TODOS acesos.

Claro! "Claro?! Mas então porquê?", perguntam vocês. Porque de dia é impossível poupar electricidade. Mas à noite, aí sim, como se gasta, pode-se poupar.

À frente desta cidade, meus amores, estão génios! Gé-ni-os!

Coisas que me chateiam II

Os coisinhos que aumentam e diminuem o comprimento das alças dos sutiãs, os quais não lhes bastava terem encarnado toda a ruindade do mundo, ainda não têm nome próprio, os safados!

Compra-se um sutiã. Ai que bem, que giro, que sexy, *rau*, que pena ficar escondido que tudo e tudo e tudo.

Vai daí, é preciso nivelar as alças, que este corpinho não veio de fábrica, não foi produzido em série, é único e faz questão de reivindicar isso como vontade mais do que como um direito.
Há duas hipóteses: nivelar, vestir, foi demais, despir, nivelar, vestir, é preciso mais um bocadinho, despir, nivelar, vestir, a esquerda está bem, a direita merecia um ajuste, despir, nivelar, vestir, 'sa phoda, fica mesmo assim, que já não tenho paciência para o tirar e pôr outra vez, já puxei um fio à alça de tanto que por ela tive que puxar, quero lá saber que escorregue para o ombro, vai-se a ver e até dá para meter conversa, também se não meterem é porque são cegos ou estúpidos, quem precisa deles assim de qualquer maneira?; ou vestir o sutiã e partir os bracinhos e desconchavar as costas para nivelar in loco. E nem assim ficar bem...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Todos os patinhos, sabem bem nadar

[clicar na imagem para aumentar]

Eu, particularmente, acho muito estranho que "saber nadar" seja requisito para se ser assistente ou comissário de bordo. Das duas, uma: ou não confiam nos aviões, ou não confiam nos pilotos, e aquelas viagens transoceânicas tendem a correr mal.

Se podia ser pior? Lá isso podia. Podiam querer que se soubesse dançar o malhão, ou que se soubesse abrir garrafas de cerveja com os dentes. Já que não se pode pedir que saibam voar, do mal o menos...

Mas, pergunto-me: um atleta de natação adaptada, pode-se candidatar? Não pedem que se saiba andar, pedem que se saiba nadar!

sábado, 23 de julho de 2011

Daquelas dúvidas que mais ninguém tem


Serei a única a escolher a cor da escova-de-dentes quando vou comprar uma nova?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Cabrões

Medo!


Diz que é "reenchível" e recarregável. Mas se, usando-o apenas com o que traz de fábrica, eu já arranjo maneira de, volta e meia, fluorescer os dedos por não acertar à primeira com o dito na tampa; de o pousar e ele ganhar vida e riscar o que não deve; de estar com ele na mão, andar com folhas para trás e para a frente e bedungar tudo, o que faria se o tentasse "reencher" e recarregar! Não consigo conceber melhor cenário do que ele virar-se contra mim, pintalgar-me os dentes, os bracinhos e os pés descalços, mudar a cor do quarto para amarelo fluorescente e, com sorte, espichar-me os olhinhos e eu ficar a chorar lágrimas fluorescentes até ao fim da vida!
Há quem tenha medo de aranhas, de alturas, da possibilidade do Sócrates tirar um curso de Filosofia. Eu, é da capacidade dos destacadores Stabilo Boss serem "reenchíveis" e recarregáveis...

OK, e da possibilidade do Sócrates tirar um curso de Filosofia...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Mais um anjo feito demónio

Não sei se já leram, se estão a ler, se pensam um dia ler o "Anjo Branco". Creio, no entanto, não estragar a estória a ninguém que caiba nos últimos dois critérios (principalmente no último), ao dizer que o livro tem um capítulo dedicado quase em exclusivo ao portentoso apparatus do paizinho de José Rodrigues dos Santos.

Desengane-se quem já leu o autor (ou que, por defeito, pense assim), que é um capítulo erótico-quase-a-roçar-a-badalhoquice-isto-será-mesmo-permitido-?. Não é. Ao contrário de em "A Filha do Capitão" e "A Fórmula de Deus" (os que eu já li, não sei se há em mais), cujos trechos erótico-quase-a-roçar-a-badalhoquice-isto-será-mesmo-permitido-? até a mim, que já pouco me choca, me fizeram ruborizar a face, este é um capítulo deliciosamente (do outro lado do espectro) escrito e bem-humorado.

Ainda bem, ainda bem!, que estive frente-a-frente com o homem antes de saber deste facto, porque se já assim fiquei embasbacada e de queixo caído, que teve que ser a senhora minha mãe a dizer "Raquel" quando ele me perguntou como me chamava para me dedicar um autógrafo, se eu soubesse o que sei hoje acerca do senhor seu pai e das leis da hereditariedade, escrevia-vos duma cela de prisão com uma matulona deitada a meu lado a fazer-me festinhas nas costas, por ter tentado raptar o homem enquanto lhe gritava "who's yo' mama?!, who's yo' mama?!"

Ele há coisas que não se faz a uma filha!

Diz-me a senhora minha mãe: -O teu cabelo está enorme!

Extasiada que ando com este facto, que vê-se bem que não tenho caquinha nem demais porcarias na cabeça que lhe sirvam de estrume, que o desgraçado do cabelo primeiro que cresça, ganham os porcos asas e as galinhas dentes, respondo com um sorriso luminoso, felicíssima por não ser a única a disso me dar conta, toda eu envolta num anúncio à Herbal Essences (mas sem gritinhos orgásmicos, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa): -Não está?

E eis que, qual rasteira mesmo dirigida à canela da alma, atira a minha mãe, acordando-me de todo aquele cenário: -'Tás mesmo a precisar de o cortar...

"ibwr keynir wekubrc!", argumentei eu, enquanto recuperava do choque e apanhava, ainda atordoada e com as pernas trôpegas, todos os resquícios de dignidade que via pelo chão. Vendo que era um argumento facilmente refutável, construí um: -Até parece que não andaste tu própria, e quando estes meus eram os teus anos, de cabelo comprido, até mais comprido que o meu! [BAM! Desta já não te levantas!]

Desconcerta-me ela, mais uma vez, mesmo quando eu pensava não ser possível: -Até meio das costas!

"iiuh dnfwe nhcnwfg", voltei a dizer, e ficamos com a conversa barra coça das antigas por ali, e não sei se ganhei eu se ganhou ela, que acho que aquela minha estucada final acabou por ser por ela empunhada sem que nenhuma de nós disso tirasse proveito, a não ser ela que era um mulherão de cabelo comprido e domado. E usou isso contra mim e agora estou a pensar rapar o meu.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Estampilha

Tenho-nos por feios, porcos e maus, mas depois presenteiam-nos em jeito de fofos, lindos e fofos. Andamos a fazer alguma coisa mal feita, com certeza...

Desta feita foi a ilustrérrima Pusinko, dona toda ela duma imparcialidade sem igual, mestre e senhora da verdade e da ambivalência, matriosca do bom-humor, inteligência e bom gosto no que toca a bebidas alcoólicas, que nos deixou no seu estaminé como quem diz "hás-de vir aqui, ao menino!", isto:

Ao que parece, somos coisa de outro mundo, e este já mal nos chega.

Diz que o dito tem obrigações inerentes: dedicar-lhe um post, está feito; agradecer a quem no-lo deu, está feito também, ali em cima e em jeito de bajulação, que é uma maneira de agradecer como outra qualquer, se não mesmo melhor; os 12, 12!, blogs a quem o oferecer, não vai poder ser. Os únicos "12" que conheço, são os deuses do Olímpo, e da última vez que vi, eles ainda não tinham internet. Dos que têm e conheço, não chegam a essa quantia, por isso, e para não deixar esta alínea incompleta, não vai nada para ninguém!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Exames

São exigentes, fazem-nos passar um mau bocado, volta-e-meia fazem-nos sentir ignorantes como não sabíamos ser possível, há ainda aqueles os quais nos sentimos capazes de enfrentar sem medo e aniquilar sem piedade, e quando no-lo espetam à frente, cruz credo, que eu até vim às aulas todas e não estou a ver de onde saiu isto!; há noites em claro, há dias em que nem se olha pela janela, quanto mais ir lá fora sentir o sol; há a pressão e o desgaste. E de repente, chega-nos um caramelo à frente, caramelo esse que, para não laurear a pevide o ano todo, no 2.º semestre se lembrou de ir para uma escolinha lá para o interior do país, que nos diz:

Caramelo: -Sabes uma das perguntas que tinha o meu exame de Português? "Escreva uma palavra que possa ter dois significados consoante a sílaba tónica"
Eu: *queixo caído, tremuras na pálpebra do olho direito e espasmos na perna esquerda* -Isso nem nos testes do teu irmão! [que anda no 8.º ano]
Irmão: -Ah pois não, não!, que isso até eu sabia!
Caramelo: -E olha o que um colega meu respondeu: 'Os indianos são os que vêm da Índia'
Eu: *hipoxia e síncope do coração*
Caramelo: Quando saímos do exame e ele nos disse, ficamos à espera de mais, mas não, foi só aquilo que ele escreveu! Rimo-nos tanto... E o meu exame de Inglês? Eu nem estudei! Uma das perguntas era um quadro, em que numa coluna tinha vários desportos: 'football', 'swimming', etc, e na coluna em frente, tínhamos que escrever a designação do desportista, tipo 'football player', 'swimmer',...
Eu: -Oh não... Estás a gozar!
Caramelo: -Não! E queres saber o melhor? As palavras estavam escritas ao lado! Era só copiar para o sítio certo!
*morri*

E o que mais me preocupa, é que, no fim, os que de lá saírem vão ser tão licenciados quanto eu. E que é mais valorizado o melhor entre os piores do que o pior entre os melhores... Não percebo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Como daquela vez em que a montanha foi ter com o Maomé

Imaginem a mercearia mais fantástica das poucas que ainda subsistem. Não é a que tem os legumes mais frescos ou as prateleiras rangentes de madeira dobrada sob o peso dos víveres e dos anos. O chão nem é de taco ou de ladrilhos bege pintalgados de preto, nem o tecto de ripas pintadas de branco ou azul.

No entanto, ah!, mas no entanto, vende os croissants com chocolates mais saborosos de que há memória, vende os doughnuts mais deliciosos fabricados deste lado do Atlântico, vende pães com chouriço e folhados de salsicha que até dão duas voltinhas no micro-ondas como que a rirem-se da vida na centrifugação de um carrocel, para queimarem a ponta da língua e se perpetuarem na memória por mais que apenas o sabor.

É pequenina, mas nela cabe tudo, desde os protectores solares aos repolhos do dia ainda húmidos da geada do princípio das manhãs sempre frias do Litoral, humidade que com o pó se mistura e entranha nas paredes desta e de todas as mercearias e lhes impregnam o seu tão característico cheiro; desde a arca frigorífica para quem quiser passar para este lado do balcão "pode estar à vontade, ora pois claro, porque não haveria?" para ir buscar o suminho fresquinho para o lanche; desde senhoras a comprar a massa e o atum enlatado para o jantar e "uma fatiinha de fiambre para o meu netinho, que gosta tanto e como eu gosto de o mimar!", a putos a comprarem doces e salgados em doses industriais como se quer e precisa para aguentar a doideira dos dias de Verão e a loucura das suas noites.

Esta mercearia, a que chama por nós e nos tenta as papilas e vicia, veio para a porta de casa.

A partir de agora, vou ter que andar com uma cunha sempre comigo para que, quando me chamarem, a desvie e vá a rebolar por ali fora, de tão obesa que tenciono deixar-me ficar neste Verão.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um dia de caca

Bioestatística, odeio-te!

domingo, 10 de julho de 2011

Será razão para alarme? II

Pedalava-se o Tour na televisão, e se era certo que ainda estávamos à mesa e que, à semelhança dos tubarões, a minha mãe diz que não consegue ouvir enquanto está a comer, eu era a única que ainda o fazia.

A páginas tantas, e tendo esta 9ª. etapa sido desastrosa no que a quedas diz respeito, o comentador faz referência a um corredor que, na Volta à Suiça, caiu e ficou em muito maus lençóis, tendo tido "um traumatismo craniano, tendo ficado alguns dias em coma induzido e, tendo já acordado, ainda só responde a estímulos simples, não consegue engolir, vai ter uma longa e penosa recuperação pela frente" e continuou no seu relato, não sei se sobre o pobre ciclista, se sobre qualquer outro coitado que hoje tenha lambido estradas francesas com os joelhos e cotovelos, se sobre a verdejante paisagem que se desenrolava perante nós, pois o meu fio de atenção à televisão é cortado à força de dois toques ao de leve no ombro, dois encostares suaves da polpa de um dedo, aos quais respondo com um virar de cabeça e vejo um olhar de pasmo e incredulidade misturados com terror, expresso em voz baixa pela senhora minha mãe com um: -Ele só come chiclets?!

-Sim minha mãe. Por isso é que a recuperação vai ser complicadota, porque ele não vai ter forcinhas...

Sabendo, mais uma vez, que a sua dúvida era tão pertinente quanto levar um guarda-chuva para o deserto, lança-me o "Oh, a sério..." de quem sabe que a minha resposta não se pautou pela integridade, já dito com os cantos dos lábios a desenharem o riso dos sábios quando cometem gralhas.

-Só responde a estímulos simples!, digo-lhe eu, depois de ter percorrido o texto que acabamos de ouvir e tendo nestas, as palavras mais foneticamente capazes de criar a confusão.

-Ai foi isso que ele disse?, diz ela já a rir o riso que diz "mais uma que era escusada".

-Não, minha mãe, disse que só comia chiclets.

A tentar manter-se séria e com o olhar malévolo que diz "tens mesmo a certeza de que queres gozar com que te põe a comida no prato?", acabamos a conversa cada uma a rir-se para seu lado, e para mais tarde -e sempre!- termos mais um momento de elevada pagodice a presentear-nos a existência.