quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O verdadeiro sentido das coisas

Corria o ano de mil-e-qualquer-coisa -se bem me lembro- quando alguém inventou as passagens para peões para tornar mais seguro o acto de atravessar ruas. Impõem as ditas, portanto, uma rua, um pedestre e carros.
Ora hoje, capto no meu campo de visão um homem que queria ir de um aqui para um ali. Chega-se à passadeira, anda até meio dela e estaca. Pensei "pronto, perdeu o Norte! Já não sabe onde está, quem é, para onde quer ir!" Fica ali uns segundos com ar de perdido, roda sobre si, nunca deixando o seu ar aluado, e decide-se a voltar para o passeio de onde partiu, onde fica uns bons minutos sem que eu desse conta de que ele estava a micar a rua. Eis senão quando vê um carro chegar-se à zona da passadeira! Espera, espera, e quando a viatura está mesmo a chegar à passadeira faz-se ao caminho. O carro trava e ele lá segue segurérrimo de si, pois que usou e bem! uma passadeira.

É bonito, tão bonito quando se vê usarem as coisas para o que elas foram feitas!
É as passadeiras e os hospícios... Lindo!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Saudades, que saudades

Saudades, que saudades eu tinha do jogging à beira-mar!

Apesar do primeiro da época ter sido no 6.º dia de Setembro, não trocava o Agosto que tive pelos joggings estivais de outros anos, apesar dos piropos que vêm da praia e dos ciclo-PSP's na sua ronda de final de tarde. Até porque em Setembro, a marginal é só nossa.

Melhor, muito melhor.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Creoula - parte III "As Vergonhas"

Dona Flor ficou conhecida pelos seus dois maridos. Dona Raquel, como odeia ser tratada, ficará eternamente conhecida pelas suas vergonhas. Aonde quer que vá, leva-as consigo, porque a companhia que lhe fazem é tanta que Raquel acha que elas também merecem viajar e conhecer e tudo e tudo e tudo.


Acto I
Indicação cénica: Cozinha, manhã cedo (quarto das 8h às 12h), Raquel é posta a descascar alhos.

Há uma característica muito boa (entre outras extremamente boas) a meu respeito: na cozinha tenho muito jeito para pôr a louça na máquina (já tirar, nem sempre, já que pode calhar de ir parar ao hospital). Claro que também consigo lavá-la à mão, consigo mesmo fazer gelatina -mas leio sempre a "receita", para prevenir dissabores-; chá, mas nunca com ervinhas porque as quantidades e eu nunca nos demos muito bem; massa, mas só para mim porque os meus gostos são incomparáveis; e fiz uns mexidos divinais no Natal passado mas nunca mais me meto noutra não vá correr menos bem. Fora isso, é esquecer.
Ora de alhos, que sei eu? Sei que são muito bons para a circulação e maus para o hálito, e que vêm em aglomerados. Quer dizer, eu sei o que é um alho! Sei que é branco-amarelado e que impõem serem descascados para deles se tirar proveito. Quando me dizem "descasca estes alhos" eu "ya, tudo bem!", porque a Raquel nunca se nega a nada e não mostra nunca ignorância nem incompetência. Se não sabe, espreita disfarçadamente para quem saiba e resolve melhor ou, quase nunca, pior, a situação.
Aglomerado de alhos na banca à sua frente. Raquel não tem meias medidas e desata a arrancar os dentes um a um e a pô-los de lado, convencidérrima de que aquilo era descascar alhos.
Não sei se por ter dado conta da minha nabice, se só para adiantar serviço, um dos cozinheiros prostra-se à minha frente a, realmente, descascar alhos. Ao ver aquilo, Raquel tem micro-acessos de riso, que tenta que passem despercebidos tão bem quanto a azelhice que escancarou ali no meio. Pega então nos dentinhos que tinha posto de lado, a tentar que a imagem que passa fosse a de organização e não de falta de saber, e foi descascando-os enquanto engolia o riso da melhor maneira possível.


Acto II
Indicação cénica: Mar Mediterrâneo. Raquel, enfiada na água até um bocadito acima da cintura, presta-se a tentar usar um snorkel

O Mediterrâneo tem tanto de límpido quanto de salgado. Da primeira, advém a vontade de fazer snorkling e ver peixinhos e coisinhas lindas debaixo de água; da segunda advém a nula praticidade em mergulhar. Ora eu, que quando quero deixar alguém perdido de riso numa piscina basta tentar sentar-me no fundo da mesma, porque devo ser arraçada de ave e ter ossos ocos, e flutuo melhor que o bacalhau de molho, tive a ideia mirabolante de querer experimentar uns óculos e um snorkel, "porque não deve ser nada difícil, é só respirar pela boca!"
Pedi os apetrechos emprestados a um jovem do grupo, preparo-me toda -óculos desde a testa até ao lábio superior, snorkel preso nos dentes- e, prevenida como gosto de ser, tento respirar com a coisa, em seco. Perfeito! Mergulho então, já com imagens de cavalos marinhos amarelos e raias cinza metálico e polvos roxinhos na mente, o meu rabo é um fraco face ao sal e empina-se todo, troco as imagens de peixinhos pela de patos de "cabeça para baixo, rabinho para o ar", vá-se lá saber porquê, dou uma inspiradela pelo nariz, combato contra o meu próprio CO2, dou logo três ou quatro arfadelas pela boca, tento bater as perninhas para tentar minimizar os danos, atrapalhei-me toda e upa cá para cima. Olho em volta, na esperança de ninguém estar a olhar para mim, mas os óculos, para além de serem de plástico estão todos embaciados, penso "mulher, à segunda é que é!", volto a enfiar a cabeça na água, o rabo volta a ficar de fora e eu quero lá saber, quero é peixinhos coloridos, carai!, duas ou três arfadelas, quase me sinto sufocar com o meu próprio CO2, venho à tona, e vejo o dono dos artefactos a olhar para mim, a pôr-me a mão num ombro e a perguntar, com um misto de pânico e preocupação: "tu estás bem?". "Não!", disse num sopro enquanto tentava normalizar a respiração e o compassar do coração. "Tenta outra vez!", diz-me ele. "Achas?! Quase morri desta! Que raio de notícia dariam à minha mãe? 'Olhe, a sua menina morreu sufocada no meio do mar'! Deixa lá isso. Toma, vai lá explorar, e depois contas-me tudo!"


Acto III
Indicação cénica: Cobertas, meio da tarde mas escuro como breu, que havia gente a dormir. Raquel tenta chegar-se à sua cama para ir buscar os óculos.

Relembro, caso tenham esquecido, que eu dormia num espaço exíguo com mais 5 miúdas. Como se passam muitos dias no mar, longe de comodidades como máquinas de lavar a roupa, a roupa interior era lavada à mão e posta a secar em fios que atravessavam os 7mm de largura do corredor que separava os nossos beliches. Farta que eu estava de levar com cuecas e sutiãs na testa de cada vez que ia à cama, decidi-me a entrar no corredor semi-curvada para evitar os obstáculos (um ultraje, devo dizer, para todos os rapazes que me ouviam queixar da minha triste sina: "Mau, dizes tu?! Quem me dera levar com cuecas na cara de cada vez que me deito!" Adiante...)
Vou eu, já toda confiante na minha destreza em andar num navio em alto mar, entro na coberta, faço a primeira curva sem espinhas, curvo-me à entrada do corredor, vou feita touro, toda pujante e intocável e pumba! com a cabeça contra o traseiro da miúda do andar de cima, que estava apoiada com os pés nas camas de baixo. "¿Quién es?, ¿quién es?", grita ela atarantada.
Não lhe disse quem era, pois que me pisguei de fininho dali para fora para não tornar aquele momento mais confrangedor, que ainda ia haver mais convívio, mais dias ali enfiados, e eu dispenso mexericos. Quanto aos óculos, passei bem sem eles, e antes me tivesse dado conta disso mesmo mais cedo...

[para estas, pois que não tenho fotos, com certeza que não. E só posso esperar que não as haja...]

domingo, 4 de setembro de 2011

Creoula - parte II "A Personalidade do Atlântico"

Quem já passou férias no litoral Oeste de Portugal conhece o feitiozinho daquele que nos banha. Tanto está impávido e sereno, como se estrebucha todo e fica de mal com a vida.
Lá longe onde são poucos os que têm a sorte de o conhecer, ele tem mais tendência a mostrar-se bravo -a bem dizer, como se quer um Oceano que se preze de o ser-, até porque, e apesar de banhar muitas mais costas para além da nossa, temo-lo por Português, e Português que é Português é tendencialmente abespinhado.

Acresce ainda outro factor: o Sr. Vento. Ora quando o Sr. Vento e o Sr. Atlântico estão em sintonia, perfeito, içam-se as velas e até se chega ao destino antes do previsto. Quando se insurgem um contra o outro, temos o Creoulinha a balouçar, quem vai dentro dele a perder o centro de gravidade, uns quantos ainda à luta com o ouvido interno e as chatices que isso traz, e uma sensação de pequenez incomparável.

De Lisboa à Ponta de Sagres, correu tudo bem, sendo que "bem" é andar contra tudo e todos, perder a noção do que é uma linha recta, pisar pernas e braços e ombros e coxas e tudo o que ampare desequilíbrios -aproveito desde já para deixar um conselho a quem vá embarcar: engordem! É muito menos doloroso ter chicha e bater em tudo quanto é parede e esquina, do que não a ter e entalar a pele entre o osso e o encosto destrambelhado-, ter que aprender a não acordar estremunhado e dar uma cabeçada na cama de cima, ter que aprender a entrar na cama de cabeça, porque se se for de rabo nunca mais se dá a volta e arriscamo-nos a ficar entalados em posições constrangedoras, e toda uma panóplia de situações que deixa quem está habituado ao chão dançante à beira de um ataque de riso. Se forem como eu e se se rirem de vocês próprios, então tudo bem, não há nada melhor do que aqueles primeiros dias!

Acabara eu de me deitar certa noite, e nos 3 milissegundos que mediavam essa acção com a de adormecer, pensei "é mesmo bom dormir embalada". Eis senão quando, a meio da madrugada, sou acordada por vigorosas sacudidelas. "Mas que raio?!", pergunta o meu Eu estremunhado ao meu Eu cheio de sono. Nenhuma resposta. Pensei "Raquel, já estás a ficar senil, mulher! Fecha os olhinhos e dorme, que o teu mal é sono". Pumba!, quase que sou atirada abaixo da cama. Pus-me à coca. "Quem anda aí?!" Nada... Sem deixar que a preocupação me invadisse, volto a fechar os olhos. Adormeci com as duas mão fincadas no lençol para não voar sarcófago fora, e de manhã depois da terceira pessoa a quem perguntei "sentiste as abanadelas hoje de noite?" o ter negado, calei-me muito caladinha enquanto sentia os olhares reprovadores pousarem em mim. Até um Oficial dizer "então, e esta noite? Dormiram bem? Passamos por uns quantos buracos! Esta estrada está muito má..." AHAH! "Vêem, insensíveis, como o navio abanou como... os navios abanam quando passam em águas tumultuosas?!" Quinzazero! A vocês dou quinzazero e de olhos fechados!

Ao largo do Algarve há demasiada calmaria. Até se tentar passar o Estreito de Gibraltar. São 13km de largura, um Oceano e um Mar a confluirem. Até aqui, nada que não se aguente. O problema, é quando surge o Levante. Ora o Levante é um safado dum vento que sopra pr'áqueles lados. "E safado porquê?", perguntais vós. Porque -e usando termos técnicos- vem de lá para cá, e nós queríamos ir de cá para lá. Peço-vos que imaginem: um navio de 67m de comprimento, de 500 cavalos de potência (uma doideira!), ondas de 4m de altura e vento de Força 8 (explico: há uma escala chamada Escala de Beaufort que "mede" a intensidade do vento. O máximo é F12, ou seja, furacão. Dá para ter uma ideia...). 'Tá? Pronto, então agora, mostro-vos o que acontece:



A melhor maneira de perceberem o movimento é olharem para a linha do horizonte. Isso e a entrada de água no convés...

E acreditem que impõe mais respeito a cava da onda do que a altura dela em si. O espaço vago que ela deixa, é magnificamente assustador.

Desse dia há uma fotografia excepcional que eu não sei quem tirou. E digo isto porque não quero os créditos dela por mãos alheias, e porque há uma certeza muito grande de que não fui eu, porque eu estava sentada ali ao lado.

[Sim, é um printscreen do YouTube, porque ela faz parte de um vídeo de fotos também feito a bordo, daí a minha preocupação em pô-la aqui seja bem próxima do zero]


E pronto, esse tal de Levante foi o responsável pela nossa não ida a Ceuta, paragem que eu tanto gostava de ter feito pela simples razão de pisar solo Africano, por muito que Ceuta seja Europeia.

Responsável por isso, e pela percentagem assustadora de enjoos a bordo! Eu não enjoei (ainda hoje estou para perceber porquê...) e quando o balanço do barco era de frente para trás e vice-versa, dizia um Oficial "pronto, vai começar o movimento que faz enjoar toda a gente". Já a mim, não. A mim dava-me sono... Virava-se tudo a favor do vento a dar de comer aos peixinhos, e a Raquel encostada a um canto a dormitar. Eu tenho problemas, pela certa que os tenho, só pode!

E agora imaginem o que é tomar banho com o navio a abanar como vedes! Enquanto se consegue esfregar com o tronco direito, vai-se andando. Com mais ou menos toques nas paredes, com mais ou menos dança de pés, a coisa corre. Quando se tem que passar para as pernas, das duas, uma: ou nos dobramos, e caímos para a frente; ou levantamos uma a uma, e tombamos para o lado. Seja qual for a táctica escolhida, fica-se sempre com as pernas e os pés mal lavados e mais galos e/ou pisaduras consoante o balanço. É só isso e lavar as mãos. Porque enquanto que o chuveiro debita água para onde o viramos, a torneira é estática e é a água que se deixa levar, tendo nós que ir atrás dela. Não parece difícil, mas há que ter em conta que se alia isso ao mexer de pés e ao bater no lavatório todo molhado com a anca. E lavar os dentes? Tem igualmente o chão a fugir, os pés a (tentar) compensar, o lavatório cheio de água, os toques de anca e uma escova cheia de pasta e uma boca qual cão raivoso cheia de espuma, a tentar ir buscar água à palma da mão que anda atrás do fio de água, enquanto se dá toques de cabeça no espelho e se parte o nariz de encontro à torneira, sem falar de que nos entretantos desta luta pode muito bem alguém querer entrar na casa-de-banho, atirar com a porta numa tentativa de se segurar ao subir o degrau da mesma, levarmos um encontrão, continuarmos com a escova numa mão, a espuma a cair pelo queixo abaixo, e sermos mais uma a lutar a luta inglória. Mas é giro! Eu, pelo menos, fartei-me de rir. A sério! Eu acho que se alguém entrava na casa-de-banho enquanto eu estava a tomar banho, devia pensar que eu não estava sozinha (ou, estando, que tinha muito jeito para me divertir), porque eu ria-me mesmo. Já nas outras peripécias, ria-me e fazia rir, o que me apraz muito também. Nunca "estamos todos no mesmo barco" fez tanto sentido.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Creoula - parte I "O Primeiro Impacto"

Não creio ser a loucura que move 40 pessoas a irem de livre vontade passar 20 dias em regime de exclusividade com gente que não conhece, 17 dos quais a bordo de um veleiro de mil-nove-e-muito-tempo-atrás. Por mim, posso dizer que sinto nas veias sangue de descobridores. O mar sempre me fascinou e o chamamento que ele gritou aos homens que nele quiseram navegar, também eu o sinto.

Nunca tinha embarcado, a não ser nos verões quentes da minha infância, num barquito de madeira a motor que, na praia que ainda hoje continua a ser a minha, ia até "lá fora" e voltava em pouco menos de nada. Chorava baba e ranho a viagem toda tal era o medo. Depois disso, só mesmo ir apanhar ondas para a zona dos surfistas num barco de borracha sem fundo e com 7 ou 8 em cima dele. Está bom de ver que quando me perguntavam se eu já tinha embarcado alguma vez, negava-o sempre, sob pena de me enfiarem num colete de forças a viagem toda.

Estranhamente, no dia em que embarcamos, não senti a ansiedade nem o nervosismo atacarem. Tinha muita vontade de entrar no navio, conhecê-lo, saber o que me (nos) esperava.
À primeira vista, é incrivelmente pequeno! É assustador estarmos todos perfilados, de mochilas às costas e expectativas nas mãos, e ver o que na altura pareceu um barquinho estreito e curto e saber que ia açambarcar com 90 pessoas.


Não sei se já entraram num navio e/ou se têm presente a prancha de acesso a ele. É estreita, coxa, abana e não é das coisas mais práticas de se andar em cima, ainda para mais se se leva uma mochilona às costas. No entanto, tudo correu bem, para grande espanto meu e das minhas vergonhas. Dentro do navio, o pânico adensa-se: o convés está cheio de cabos e amarras e semi-rígidos a ocuparem o pouco lugar disponível, e mais barquinhos de madeira (que agora sei serem os doris, dos tempos da pesa ao bacalhau), e já se sente uma tímida ondulação a querer mandar mais que nós nas nossas pernas. Mandam-nos ir pousar as trouxas à nossa cama, e só não tropecei na porta e pelas escadas abaixo porque salvei um passarinho da morte certa há anos atrás e fui finalmente recompensada. As portas do convés para o interior são altas. Embora com um degrau, dão-nos acima do joelho, sensivelmente. As escadas são a pique e os degraus estreitérrimos.

[a foto está tremida, porque eu era bem capaz de estar a tropeçar quando a tirei]

Os beliches são de três camas e eu, que não gosto de dormir na da baixo nos de duas por causa dos abafos que me dão, fiquei precisamente na de baixo num de três, que é para a terapia ser de choque e deixar de ser piquinhas.

[Não consegui apanhar os três beliches, porque o espaço é tão curto que não deu para melhor.
A minha cama é a de baixo. Convém frisar que esta foto foi tirada no último dia, daí o lençol estar todo arruinado (o que, aparentemente, não é desculpa, porque a de cima está impecável...). Mas não obstante!
De notar que as cortinas azuis do lado esquerdo são outro beliche, ou seja, eramos 6(!) miúdas num espaço onde desapertar o soutien é uma empreitada para a qual a melhor contorcionista asiática teria que treinar a vida toda, sem certezas de sucesso. E nós? Sim, nós conseguíamos...]

A saída de Lisboa é magnífica! Há lá vista mais bonita para a cidade, que a do Tejo! Passar por baixo da 25 de Abril com muito e muito trânsito lá em cima também é coisa para se deixar guardada por muito tempo na caixinha das memórias.
A única pena que tive foi não termos ninguém saudoso na nossa partida, a menos de uma mulher de um marinheiro e a RTP cujas reportagens se não viram, vo-las dou a conhecer agora: em directo (na qual somos "40 jovens") e em deferido (onde consta que somos "52 jovens", mas garanto-vos porque lá estive e sei, que das 10h da manhã para as duas da tarde, ninguém entrou no navio).

Tivemos logo que puxar cabos porque diz que o Creoula é um veleiro e os veleiros querem-se a aproveitar o vento, e entre berros de "entra com a boca" ou "segura a pena" e "folga o guardim", lá nos fomos sentindo perdidos. Parecia impossível alguma vez habituarmo-nos àquilo tudo. A coroar tudo, parecíamos uns bebedolas a andar aos S's, a ir contra tudo o que nos segurasse e amparasse. Mas, o que é delicioso, é ver os cuidados que os marinheiros têm com os cabos, o quão bem deles tratam.

As mesas têm rebordos salientes para que nada caia delas. Logo na segunda ou terceira refeição, rolavam pêssegos pelas mesas fora e chegar até elas com a sopa toda dentro da malga era razão para festejar.


Tudo tem que estar preso, fechado, protegido contra o caprichos do mar.

A primeira imagem que tive do Comandante do navio foi à noite. Estava eu na Ponte, que é o local dos aparelhómetros todos do navio (radares, sistemas informativos de todo o género, e etc), ao meio da qual há umas escadas. A páginas tantas, e enquanto um Tenente nos (a mim e a outra coleguinha do meu grupo) explicava as funções de todos os traços luminosos e afins, ouve-se uma voz vinda das profundezas "Boa noite. Tudo bem?" Eu viro a cabeça para trás, e vislumbro uma sombra corpulenta emergir da luz, com um cachimbo numa mão e envolta toda ela num casaco vermelho, que se houve noite fria, foi aquela. Fiquei boquiaberta e maravilhada. O Comandante! De vermelho e a fumar cachimbo!!! Podia ser melhor? Não, não podia.

A primeira sensação que se tem na cama é, pela certa, a que enquanto bebés temos num berço a ser embalado. É delicioso. A menos quando se vai a passar a ponta de Sagres, que quase se cai abaixo da cama, e quando tivemos que fazer tempo à entrada do Estreito de Gibraltar, que o vento e o mar estavam terríveis e não nos deixaram passar.

Noutro dia, contar-vos-ei como é tomar banho em alto mar e usar a casa-de-banho, e as tormentas do Levante.

sábado, 27 de agosto de 2011

Com os pés bem assentes na Terra

Voltei.

Nem sei que vos diga. Conheci-me melhor, conheci os meus limites, vastos, agora que os sei, como o próprio mar. Viajei em meio líquido, dissolvi-me em sal, fundi-me com o navio com os meus pés descalços no convés. Não houve mais nada durante todos aqueles dias, o Mundo éramos nós. O Creoula ensina-nos a relativizar tudo. Senti-lhe a força e o poder do mar no leme, icei-lhe as velas, safei-lhe cabos, poli-lhe "amarelos". Ouvi-o gemer à força das ondas que, impelidas pelo Levante, não nos deixaram ir a Ceuta. Nunca tive medo. Apaixonei-me por ele.
Dormi num "sarcófago", único lugar só meu, que à noite me embalava ora doce, ora rispidamente, que o Atlântico tem muita personalidade.
Dormi de olhos abertos quando devia estar acordada, comi alarvemente, tropecei nas minhas pernas cuja vontade própria se dissipou no embalo do mar, estou negra de pisaduras e preta do Sol.
Vivi.

Pode ser que um dia vos conte mais pormenorizadamente certos momentos, sem nunca vos deixar esquecer que o que se passa no Creoula, fica no Creoula. Agora, ainda me sinto como parte de uma relação que acabou, e preciso de tempo para fazer o meu luto.

Deixo-vos só um lipdub que filmamos a bordo. A música faz parte da banda-sonora que nos acompanhou quando nem as ondas de rádio chegavam onde estávamos.
Peço só a quem me conhece e reconhece no vídeo, que contenha os comentários, sim? Que eu conheço-vos de volta, e puxei muito pelo físico a bordo, e dou-vos um belo dum arraial de porrada se quiser.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Heróis do Mar

Julho de 1497, Caravela Bérrio - Vasco da Gama empreende o Caminho Marítimo para a Índia

Abril de 1500, numa Caravela qualquer - Pedro Álvares Cabral, por nabice ou matreirice, engana-se e vai ter ao Brasil

Agosto de 2011, NTM Creoula - Raquel põe a Marinha Portuguesa em alerta máximo, numa viagem até terras Mouriscas, Mediterrânicas e Sul-Europeias



Uma viagem desta envergadura exige preparação. Já tenho comigo as braçadeiras da Heidi, e tenciono embarcar com elas postas, só assim para marcar posição: "quem é a parvalhona do grupo?" Pumba, é aquela das braçadeiras.

De mais a mais, levo o "Moby Dick" para ler, a "We All Live in a Yellow Submarine" para despertador e a banda sonora do Pirata das Caraíbas para momentos de descontracção.

Quando chegar, conto ter a pele tisnada pelo sol e pelo sal, uma tatuagem no braço esquerdo em forma de âncora, sabor a rum na boca enquanto dela me saem "Aye's", "Matey's" e soluços vergonhosos, e estórias, muitas estórias para contar.

Até ao final de Agosto, me hearties!

(não sei porque comecei isto com os Descobrimentos e acabei com Piratas...)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Quando eu começo a espiralar

Facto: eu tenho um sinal na coxona, e volta e meia quero mostrá-lo ao dermatologista para que nenhuma ruindade se atreva a apoderar-se dele.

Problema: que cuecas vestir para ir ao dermatologista.

É que... é um dermatologista! Já não acho muita piada a ter que me despir para quem não está nem aí (e nem convém que esteja), mas há especialidades e especialidades. O senhor quando escolheu a dele não pensou nas cachopas que têm sinais nas coxonas. O senhor estudou para ver juventude borbulhenta, não cachopas despidas! E, vai daí, fico sem saber. Umas sóbrias, é muito deslavado, recuso-me a usar disso; umas coloridas, parece que fui apanhada de surpresa; umas sexy, ainda o distraio, e quero mesmo é que ele olhe para o sinal; umas do tempo da minha avó, não tenho. E não pensem que isto é fazer uma tempestade num copo de água! Porque, imaginem o cenário: eu, de pé, sem calças e de costas para o homem, a pensar em sombras de palmeiras, horizontalidade e relva acabada de cortar, enquanto trauteio interiormente a marcha fúnebre do Chopin. O homem, sentado com a cabeça ao nível do meu rabo com uma mão no aparelhómetro (no que vê os sinais, oh gente imoral!) e a outra vá-se lá saber onde.

Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais paranóico do que eu?

sábado, 30 de julho de 2011

Raquel vai à igreja

Se me confessei? Não, ganhem juízo. Tão-pouco acredito que isso expiasse os meus pecados. "Então não acreditas em pecados!" Não amores, acredito, porque até para o bom-senso os há, não precisamos de nenhum Messias que no-los dite para uma tábua no deserto. Mas vá, ao que interessa! Divagadores, pá...

Não direi que são o melhor sítio para ouvir música clássica -que a música clássica ouve-se bem em qualquer lado-, mas que as igrejas têm o seu quê de fantástico, têm. A acústica é óptima, e há algumas que a isso, aliam uma construção calmante, arriscarei dizer. Há as paredes de pedra, os tectos altos, o chão frio. Hoje, houve também a Orquestra da Juventude de Bremen.

Tocam bem que se fartam, e o maestro, bem!, o homem não se limita a vibrar com a música, ele vive-a! Eu nunca vi tal coisa! Achava eu que em allegros bastava a vigorosidade da percussão, bastava a intensidade do sopro, bastava o acelerar do arco nas cordas. Que em adagio bastava a carícia do ar no bocal, a meiguice dos pêlos de cavalo nas cordas, o sono da percussão. Chega, mas não basta. É preciso o Stefan Geiger para tudo ganhar outro sentido, outro peso, outra grandiosidade. Ele até tem o cabelo cortado propositadamente para o seu ofício, certamente! Lembram-se dos míticos cortes "à tigela"? Pronto, é do género. E é uma delícia vê-lo ganhar vida a cada compasso mais acelerado.

E as expressões do senhor? O menino da percussão (no qual eu colei, aproveito desde já para pedir a quem de direito, para atentarem na colocação dos músicos, porque eu sou facilmente "distraível" e há visões que me fazem divagar muito...) e que está em local privilegiado face ao maestro, volta e meia lá se ria, porque são expressões e trejeitos absolutamente desarmantes.

E, sabíeis vós, que nós temos um compositor Português que, do alto dos seus 22 anos (é que já ninguém tem 22 anos, por favor...) já faz furor no estrangeiro, e estreou hoje uma obra? Não me deliciou, mas a interpretação foi avassaladora!

Enfim, a juventude não está perdida, afinal... E eu, estou com Mendelssohn na cabeça.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Mercearia

Diz a dita mercearia, com um cartaz afixado na porta: É favor deichar as mochilas à porta.

Meio da tarde, cheio cheio cheio, que se a taxa de natalidade diminuiu, não foi certamente há 13/17 anos, que eles são mais do que cogumelos proliferando-se em sítios húmidos, salvo seja!

Diz a Raquel: Aqui é tudo bom... Menos a gramática.

E pumba, a juventude toda escancarada a rir! Nunca pensei que eles percebessem a piada...

Raquel, a divertir o povo desde... tempos imemoriais.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Gente iluminada

Há umas semanitas atrás, veio no jornal da terra que a Câmara aprovou uma medida para poupar dinheiro: apagar candeeiros públicos alternados, ou seja, a cada dois, um era apagado, permitindo assim haver luz na via pública, mas gastar-se menos.

Dito e feito. Chegada a escuridão celestial, acendem-se os candeeiros mas não todos.

Meio da tarde na terrinha: uma rua com os candeeiros TODOS acesos.

Claro! "Claro?! Mas então porquê?", perguntam vocês. Porque de dia é impossível poupar electricidade. Mas à noite, aí sim, como se gasta, pode-se poupar.

À frente desta cidade, meus amores, estão génios! Gé-ni-os!

Coisas que me chateiam II

Os coisinhos que aumentam e diminuem o comprimento das alças dos sutiãs, os quais não lhes bastava terem encarnado toda a ruindade do mundo, ainda não têm nome próprio, os safados!

Compra-se um sutiã. Ai que bem, que giro, que sexy, *rau*, que pena ficar escondido que tudo e tudo e tudo.

Vai daí, é preciso nivelar as alças, que este corpinho não veio de fábrica, não foi produzido em série, é único e faz questão de reivindicar isso como vontade mais do que como um direito.
Há duas hipóteses: nivelar, vestir, foi demais, despir, nivelar, vestir, é preciso mais um bocadinho, despir, nivelar, vestir, a esquerda está bem, a direita merecia um ajuste, despir, nivelar, vestir, 'sa phoda, fica mesmo assim, que já não tenho paciência para o tirar e pôr outra vez, já puxei um fio à alça de tanto que por ela tive que puxar, quero lá saber que escorregue para o ombro, vai-se a ver e até dá para meter conversa, também se não meterem é porque são cegos ou estúpidos, quem precisa deles assim de qualquer maneira?; ou vestir o sutiã e partir os bracinhos e desconchavar as costas para nivelar in loco. E nem assim ficar bem...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Todos os patinhos, sabem bem nadar

[clicar na imagem para aumentar]

Eu, particularmente, acho muito estranho que "saber nadar" seja requisito para se ser assistente ou comissário de bordo. Das duas, uma: ou não confiam nos aviões, ou não confiam nos pilotos, e aquelas viagens transoceânicas tendem a correr mal.

Se podia ser pior? Lá isso podia. Podiam querer que se soubesse dançar o malhão, ou que se soubesse abrir garrafas de cerveja com os dentes. Já que não se pode pedir que saibam voar, do mal o menos...

Mas, pergunto-me: um atleta de natação adaptada, pode-se candidatar? Não pedem que se saiba andar, pedem que se saiba nadar!

sábado, 23 de julho de 2011

Daquelas dúvidas que mais ninguém tem


Serei a única a escolher a cor da escova-de-dentes quando vou comprar uma nova?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Cabrões