quarta-feira, 13 de julho de 2011

Como daquela vez em que a montanha foi ter com o Maomé

Imaginem a mercearia mais fantástica das poucas que ainda subsistem. Não é a que tem os legumes mais frescos ou as prateleiras rangentes de madeira dobrada sob o peso dos víveres e dos anos. O chão nem é de taco ou de ladrilhos bege pintalgados de preto, nem o tecto de ripas pintadas de branco ou azul.

No entanto, ah!, mas no entanto, vende os croissants com chocolates mais saborosos de que há memória, vende os doughnuts mais deliciosos fabricados deste lado do Atlântico, vende pães com chouriço e folhados de salsicha que até dão duas voltinhas no micro-ondas como que a rirem-se da vida na centrifugação de um carrocel, para queimarem a ponta da língua e se perpetuarem na memória por mais que apenas o sabor.

É pequenina, mas nela cabe tudo, desde os protectores solares aos repolhos do dia ainda húmidos da geada do princípio das manhãs sempre frias do Litoral, humidade que com o pó se mistura e entranha nas paredes desta e de todas as mercearias e lhes impregnam o seu tão característico cheiro; desde a arca frigorífica para quem quiser passar para este lado do balcão "pode estar à vontade, ora pois claro, porque não haveria?" para ir buscar o suminho fresquinho para o lanche; desde senhoras a comprar a massa e o atum enlatado para o jantar e "uma fatiinha de fiambre para o meu netinho, que gosta tanto e como eu gosto de o mimar!", a putos a comprarem doces e salgados em doses industriais como se quer e precisa para aguentar a doideira dos dias de Verão e a loucura das suas noites.

Esta mercearia, a que chama por nós e nos tenta as papilas e vicia, veio para a porta de casa.

A partir de agora, vou ter que andar com uma cunha sempre comigo para que, quando me chamarem, a desvie e vá a rebolar por ali fora, de tão obesa que tenciono deixar-me ficar neste Verão.

11 comentários:

Ribossoma disse...

ao início parecia que estavas a descrever aquela ao pé da praia ao lado do "teu" apartamento...

who's yo' mama?! disse...

*suspiro* o MEU apartamento... Quando for mesmo meu, vais merecer ir a uma das 500 mil festas que lá vou dar, só por teres falado nele nesses termos!

Mas estou MESMO a falar dessa! :D

Ribossoma disse...

"veio para a porta de casa"

não me lembro de a ver quando fui a tua casa da ultima vez!

who's yo' mama?! disse...

Porque se calhar ainda não estava lá huh huh huh huh!

Ribossoma disse...

1º Tu já andas a ir para a praia sem dizer nada desgraçada?!

2º Agora essa mercearia tem como vizinha aquele bar muuuuito suspeito?! Cheira-me que vai perder a clientela! xD

who's yo' mama?! disse...

Que bar suspeito? Calado, menino!

Ribossoma disse...

Muito suspeito minha cara! Se estivermos a falar do mesmo...

Pusinko disse...

Cresci num mundo desses... do post. nao dos vossos bares obtusos :p

Que saudades!
Uma belíssima crónica a menina nos presenteia.
Veijokas

Ana FVP disse...

Bem, que descrição! Lol

who's yo' mama?! disse...

Ribossoma, não sei do que falas.

Pusinko, todas nós temos a nossa quota parte de bares obtusos, é escusado negar :P
E muito obrigada pelo elogio.
Beijinhos

Ana FVP, no que a descrições diz respeito, melhor que eu só mesmo o Eça de Queirós ;)
Obrigada!

Pusinko disse...

Tenho bares obtusos, rectos, agudos, esquizofrénicos, alternativos, punks, rock, jazz, quadrados, esféricos... e gostod e todos eles.

Mas o que descreveste foi mesmo muito bonito. E gostei mesmo.