segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quando abre a caça ao hipopótamo?

Vejo-vos a fazer greves, reivindicações, protestos e paralisações. Porque vos tiram os subsídios, porque vos baixam os salários, porque sobem a inflação e o IVA, porque diminuem os apoios e as pensões.

E contra a Popota, não vos vejo fazer nem dizer nada!

O Continente tinha a Leopoldina, um pássaro alto, bem-disposto, aventureiro, que despertava o gosto pela descoberta; e o Mundo Encantado dos Brinquedos, onde havia reis, princesas, dragões, porque há lutas que terão sempre que ser travadas, e porque o bem acaba sempre por vencer, havia heróis de banda-desenhada e o interesse pela leitura, havia pulos, saltos e muitos trambolhões, porque quando se é puto é-se resiliente mais do que resistente. E tudo isso, porque os brinquedos eram a nossa maior alegria.

Agora, o Continente tem uma hipopótama assente em duas patas, cor-de-rosa que mete dó, oca que nem um cano da água, porque lhe interessam purpurinas e brilhinhos, vestidos curtos e danças demasiado requebradas até para os cabarés do Moulin Rouge, fama e exuberâncias, e ninguém, NINGUÉM, pais, avós, associações pelo interesse das crianças e da preservação da inocência e da infância, se insurge contra isso!

A minha infância encheu-se de Betadine nos joelhos e de detergente para as bolas de sabão. Agora, de cada vez que vejo uma miúda com botas até ao joelho, pulseiras achincalhadoras e vontades de pintar olhos, unhas e lábios, só me apetece chorar. Por ela, porque vai haver um dia em que vai ser grande, e não vai saber o que foi ser pequena. Vai haver um dia em que não vai sentir que cresceu, e não vai poder voltar às reminiscências e memórias do passado. Vai haver um dia em que vai ter filhos, e não vai saber deixá-los andar, e sujarem a roupa, e esfolarem os joelhos, e abrirem sobrolhos em piruetas destrambelhadas [caso real], não vai saber deixá-los crescer e aprender as coisas mais importantes.

Sinto que estamos a passar o ponto sem retorno, e ninguém quer saber. Digo muitas vezes que tempos difíceis, viveu a minha avó, que teve 10 filhos e passou uma Guerra Mundial, com alimentos contados e senhas para os ir levantar, e teve que fazer 4 deles fugir à socapa do país para não irem para o Ultramar, e conseguiu criá-los a todos, e nenhum se queixa da sua infância (antes pelo contrário), e o quanto é delicioso ouvi-los falar desses tempos!

A maior crise que se vive agora não passa pelo défice nem pela periclitância do Euro. A maior crise dos dias que correm, é a crise de valores. Pior do que valer tudo, agora valem coisas que eu tenho por execráveis. Veja-se o exemplo da Popota...

8 comentários:

Pusinko disse...

Que bem falado! Condordo. No Betadine e tudo, que foi grande amigo de joelhos e arranhões passados!
Posso fazer um linkinho a este texto um dia destes?

Beijokas

Pusinko disse...

concordo*

who's yo' mama ostrich?! disse...

Pusinko, o mais fantástico no teu comentário nem é o quereres parafrasear-me -o que já de si não demonstra muita sanidade na tua pessoa-, mas sim a correcção do "concordo", que eu não tinha dado conta da gralha e fiquei "OK, esta miúda está mesmo com problemas... Diz que concorda e depois vem dizer que 'Ai não, afinal concordo'..."

Sou uma naba.

(E sim, podes fazer um linkinho, coisa que muito me envaidece, o que pode não ser boa coisa de, em vezes futuras, aturar ;) )

Ana FVP disse...

Welcome do the XXI century!

;)

who's yo' mama ostrich?! disse...

Ana FVP, tenho medo, então...

Ana FVP disse...

Loooool

;)

Estudante disse...

Crise de valores, é isso mesmo! Muito bem escrito! Adorei :D

who's yo' mama ostrich?! disse...

Estudante, sois por demais simpática. Obrigada :)