Media Player: um conselheiro sentimental, um dotado tratador de animais em cativeiro a expandir horizontes, um Viagra sem efeitos secundários...
A apaziguar encefalias, dores do reumático e problemas de azia desde mil-nove-e-quarenta-e-três
sexta-feira, 22 de maio de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Perigos da Selva Urbana
Os automóveis, a poluição, os fumos e sirenes e barulhos; o stress, as pressas, os velhos que não andam, as pombas que voam rasantes, os taxistas sem paciência e os condutores de bus sem cuidado; as pontas de cigarro atiradas sem se ver para onde, as coisas viscosas de pulmões em mau estado e gente em fraco asseio, as chicletes no chão; os cães rafeiros, os presentes destes e dos parentes tão próximos no comportamento das vontades quanto afastados na origem, os putos parvalhões, os piropos dos trolhas; os semáforos de luz em tons laranja, as passadeiras invisíveis; os charcos de água quando chove e a falta de árvores e sombra quando está Sol; os loucos, os pedintes, os pedinchões, tudo isto já todos conhecem.
Mas os Porto, por ser nosso e não só, ainda tem turistas e máquinas fotográficas em punho, e gincanas obrigatórias e não delineadas, se não queremos aparecer na fotografia. Que há monumentos e monumentos e alguns, os que não aparecem nos guias turísticos, são para continuar assim, incógnitos...
Mas os Porto, por ser nosso e não só, ainda tem turistas e máquinas fotográficas em punho, e gincanas obrigatórias e não delineadas, se não queremos aparecer na fotografia. Que há monumentos e monumentos e alguns, os que não aparecem nos guias turísticos, são para continuar assim, incógnitos...
quinta-feira, 14 de maio de 2009
O Amor é uma fervura/ Que a saudade não segura/ E a razão não serena
-Valeu a pena, pelo menos...?
-Huh?!
Já nem se lembrava de que ali estava. Era fácil a cabeça vaguear-se-lhe para longe. Tinha tantas vontades, tantos quereres, tanto onde e com quem estar, que o tempo não lhe chegava para tudo. Às vezes fazia o exercício de pensar "e se agora, eu não estivesse aqui, mas noutro lugar?", e lá ia passear pelas ruas intrincadas da imaginação, tão-pouco dando-se conta de que o corpo permanecia no mesmo sítio.
De súbito, os cheiros, familiares como eram, a café torrado e a madeira humedecida pelas gotículas da chuva que se esgueiravam para dentro de cada vez que se abria a porta e que nas paredes encontravam descanso, finalmente aquecidas por gentes e respirações, vapores e luzes, ligaram-lhe a capacidade cognitiva. As luzes desenharam as paredes da sala, amarelo-acastanhada, soturna em dias como aquele; os sons fizeram-se em conversas nas mesas vizinhas, àguas ferventes e borbulhantes, e deu-se conta de onde estava. Uma sensação de aconchego percorreu-o.
Não que não quisesses estar ali. Mas era-lhe tão fácil a mente vaguear-se-lhe para longe...
-Se valeu a pena! Como diz o Rui Veloso, "se tiver de ser, ao menos que valha a pena"... Valeu a pena?
Num silêncio de quem repete para si a pergunta e lhe tenta tirar o sentido à força da repetição -tantas vezes que já o fez e não resultou!-, conseguindo não mais que lhe descobrir os meandros; de quem sabe mas não quer dizer, com medo de que as coisas se tornem mais verdadeiras só por saírem da boca para fora, só quando saem da boca para fora; num silêncio que não corre por mais que se estique, que tanto se quer perpetuado ou fulminante, cresce a voz num grito pouco mais que mudo, tímido e penitente:
-Não...
Ela fez-lhe um aceno contido, levantou-se mal arrastando, quase deslizando acima do chão, suspensa por uma qualquer força invisível a cadeira e saiu.
Lá fora o frio de Inverno era cortante. Arrasava as orelhas e a cara, e num aconchego que se queria de outros braços, guardou-se nos seus próprios e desceu a rua, travada pelo vento mas impulsionada pela vontade, levando somente a certeza de que aquele seria, a partir de então, mais um lugar desfeito, morto para sempre...
terça-feira, 12 de maio de 2009
Eurofestival da Canção II
Aqui há atrasado -o ano passado por esta altura, mais coisa menos coisa-, falei muito bem da nossa música eurofestivaleira, e do quanto achava -ainda acho- que ela apelava ao sentimento Português, que transpirava alma Lusa por todas as semi-breves, colcheias, claves e tudo o que mais a fazia. Continuo a gostar imenso dela. Chegamos mesmo a ir longe com ela, se bem me lembro tão longe quanto nunca.
Qual não é pois o meu espanto quando, este ano volta a surgir uma música fantástica!
Se a outra era alma, esta é o compassar do coração; se a outra era sentimento, esta é todas as necessidades arrebatadoras de sorrir; se a outra apelava a dores antigas, de perdas de quem muito se quis, esta dá vontade de encontrar alguém para lha cantar!
Eu, pelo menos, assim que apanhar um a jeito, cantá-la-ei, e daí só esperarei um futuro embalado por ela, já que a minha costela romântico-depressiva-o-badalhocamente-icompreendida, já tine, já todo o corpo se me baloiça com este som!
Sinceramente, não pensei que fossemos tão longe -e sim, uma final do Eurofestival já é um marco histórico-, porque acho que a música (a letra, principalmente), não é de nada fácil compreensão aos estrangeiros, e nestas ocasiões, tende-se tirar importância aos quê's inerentes aos países. Ainda para mais a jovem que a canta (Daniela Varela, ao que parece) estava incrivelmente nervosa o que bem se notou na voz dela (sim, eu vi o Eurofestival. Não todo! Só pouco mais que a nossa prestação. E aproveito para me queixar tão publicamente quanto isto me permite, que é uma vergonha um Eurofestival sem Eládio! Tenho dito...), mas só o termos (enquanto povo e no sentido mais global possível, já que não tive nada a ver com isso, pois consta que as únicas vontades que contam são as que se fazem em telefonemas...) tido a decência de a levar ao Festival, já me bastou. Sim!, porque houve para aí muito energúmeno que querer, queria era a Luciana Abreu, mais a palermice teatral "tenho mamas, e elas bastam-me"! Valha-nos a sagacidade de poucos, mas influentes...
Mas pronto, lá vamos. E ainda bem. Fico muito contente.
De mais a mais, e em jeito de repetição do ano passado, esta música é que ficava bem cantada por uma tuna que eu cá sei... Ouvissem-me elas, e oh! a quantidade de coisas que corriam melhor...
Qual não é pois o meu espanto quando, este ano volta a surgir uma música fantástica!
Se a outra era alma, esta é o compassar do coração; se a outra era sentimento, esta é todas as necessidades arrebatadoras de sorrir; se a outra apelava a dores antigas, de perdas de quem muito se quis, esta dá vontade de encontrar alguém para lha cantar!
Eu, pelo menos, assim que apanhar um a jeito, cantá-la-ei, e daí só esperarei um futuro embalado por ela, já que a minha costela romântico-depressiva-o-badalhocamente-icompreendida, já tine, já todo o corpo se me baloiça com este som!
Sinceramente, não pensei que fossemos tão longe -e sim, uma final do Eurofestival já é um marco histórico-, porque acho que a música (a letra, principalmente), não é de nada fácil compreensão aos estrangeiros, e nestas ocasiões, tende-se tirar importância aos quê's inerentes aos países. Ainda para mais a jovem que a canta (Daniela Varela, ao que parece) estava incrivelmente nervosa o que bem se notou na voz dela (sim, eu vi o Eurofestival. Não todo! Só pouco mais que a nossa prestação. E aproveito para me queixar tão publicamente quanto isto me permite, que é uma vergonha um Eurofestival sem Eládio! Tenho dito...), mas só o termos (enquanto povo e no sentido mais global possível, já que não tive nada a ver com isso, pois consta que as únicas vontades que contam são as que se fazem em telefonemas...) tido a decência de a levar ao Festival, já me bastou. Sim!, porque houve para aí muito energúmeno que querer, queria era a Luciana Abreu, mais a palermice teatral "tenho mamas, e elas bastam-me"! Valha-nos a sagacidade de poucos, mas influentes...
Mas pronto, lá vamos. E ainda bem. Fico muito contente.
De mais a mais, e em jeito de repetição do ano passado, esta música é que ficava bem cantada por uma tuna que eu cá sei... Ouvissem-me elas, e oh! a quantidade de coisas que corriam melhor...
domingo, 10 de maio de 2009
Está escrito na cidade...
-You just haven't figured it out yet, have you?
-What?
-It, you know, IT, the big picture!
-Guess not...
-The Beatles!
-What about them?
-This... Look, other bands, they wanna make it about sex or pain, but you know, The Beatles, they had it all figured out, OK? "I want to hold your hand" (...)
-What?
-It, you know, IT, the big picture!
-Guess not...
-The Beatles!
-What about them?
-This... Look, other bands, they wanna make it about sex or pain, but you know, The Beatles, they had it all figured out, OK? "I want to hold your hand" (...)
quarta-feira, 6 de maio de 2009
E as frases da Queima...
-Tens que chupar e trincar.
-Isso não, que ouvi dizer que dói...
Eu estava aqui a pensar... onde será a minha trombinha?!
Oh Marta!, a tua coisa está húmida!!!
Eu até acho que ainda não sei o que é uma -como é que se diz?- pichota...
(acerca da falta de luz): Se este ano é assim, para o ano a música vai ser em Braille!
E, como pièce de résistance, "o teu popó no meu pipi"...
Sintam-se à vontade para alargar o rol... Eu acho que, assim de repente, não me lembro de mais nenhuma...
-Isso não, que ouvi dizer que dói...
Eu estava aqui a pensar... onde será a minha trombinha?!
Oh Marta!, a tua coisa está húmida!!!
Eu até acho que ainda não sei o que é uma -como é que se diz?- pichota...
Mas 28 é múltiplo de sete?! 28 É MÚLTIPLO DE SETE?! (e os estúpidos éramos nós, que estávamos confiantemente a dizer que sim...)
(acerca da falta de luz): Se este ano é assim, para o ano a música vai ser em Braille!
E, como pièce de résistance, "o teu popó no meu pipi"...
Sintam-se à vontade para alargar o rol... Eu acho que, assim de repente, não me lembro de mais nenhuma...
sábado, 25 de abril de 2009
E diz o Sócrates...
"O que eu me comprometo a fazer, é trabalhar todos os dias para que as futuras gerações tenham mais oportunidades do que eu." (Jornal da Tarde, RTP1, 25 de Abril de 2009, 4'12''-4'18'')
Não, é que de facto acabar(?) um curso ao Domingo, e só se poder ser Primeiro-Ministro, é duro...
Que o beato Nuno salve a minha geração de tal! Antes acabar no desemprego ou quê... Dasse!
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Sinais dos Tempos
É triste pensar que nos tempos dos Reis e seus Exércitos, Cruzadas e outros que tais, as armaduras eram o único hardwear que havia...
terça-feira, 21 de abril de 2009
O caso da supra-numerária
Sala de aulas. À pinha, muito à pinha, o que até nem interessa para o caso... Eis que, do aparente nada, e a meio duma explicação, o docente se sai com um "Alguém viu por aí uma lapiseira supra-numerária?"
Tendo eu uma caneta na minha mesa, aparecida não-sei-de-onde, e com ar de esquecida, que até sem tampa estava, e não estando habituada por aí além a que chamem "lapiseira" aos lápis de minas -cá na terra, "lapiseira" é "caneta"!-, prontifiquei-me pois a elevá-la à força de braços e a dizer um "está aqui uma..." Ainda não tinha acabado de dizer a frase e a) o professor encontra o tal LÁPIS dele, e b) a cachopa ao meu lado estava atónita a olhar ora para mim, ora para a caneta, ora para mim, ora para a caneta... Preocupei-me, é certo, porque vi logo ali uma adversária, alguém que tinha dado conta da minha sensualidade pouco disfarçada ao dirigir a palavra ao professor e que não se sentia bem com isso. No filme que já se estava a desenrolar na minha cabeça, estávamos já, eu e ela de frente uma para a outra, distanciadas por um chão poeirento iluminado por um Sol abrasador, de olhos piscos a tentarmo-nos aniquilar com a força da mente, porque sim, eu tenho um fetiche com aquele professor, não sei bem porquê (acho que tem qualquer coisa a ver com o facto de já me ter preparado psicologicamente para daqui a uns tempos lhe mostrar algo mais que capacidades intelectuais para entrar num Mestrado...). Já estava eu a medi-la de alto a baixo, de soslaio e com o meu olhar de superior, e eis que ela se pulveriza automaticamente, quando não se detém e pergunta à coleguinha do lado, com o ar de quem acabou de ouvir que afinal o Mundo é de facto e comprovadamente, um rectângulo: "o que é uma lapiseira supra-numerária?"
Tivesse eu uns ditos cujos para cair, e ter-me-iam caído logo ali! Como é que é possível que se chegue à faculdade e não se saiba o que raio quer dizer "supra-numerária"?! Pior do que isto, só mesmo o outro que não sabia o que eram "aqueles números entre parêntesis depois da vírgula"! Mas a mim só me calham abéculas, não só?
A amiga do lado pois, sabia tanto quanto ela, e a cachopa lá voltou a olhar para mim, ainda de boca aberta, a pensar que "supra-numerária" devia querer dizer "sem tampa", e a esta hora ainda devo ser conhecida pela "miúda que sabe termos estranhos para designar coisas mais que corriqueiras"...
E ainda achava eu que ela ia ser uma adversária... Parece-me que tenho mesmo é que me preocupar com o jovem, e repito o jovem, que diz que -e depois do professor ter dito que não é garantido subir-se a nota nas orais, podendo mesmo descê-la-, que "ai, eu numa oral subia logo a nota! Logo eu! Deixava cair o lápis sem querer e oh, já estava", o que quer que isto queira dizer, apesar de eu conseguir pensar em muita coisa, mas não quero sequer ir por aí...
Tendo eu uma caneta na minha mesa, aparecida não-sei-de-onde, e com ar de esquecida, que até sem tampa estava, e não estando habituada por aí além a que chamem "lapiseira" aos lápis de minas -cá na terra, "lapiseira" é "caneta"!-, prontifiquei-me pois a elevá-la à força de braços e a dizer um "está aqui uma..." Ainda não tinha acabado de dizer a frase e a) o professor encontra o tal LÁPIS dele, e b) a cachopa ao meu lado estava atónita a olhar ora para mim, ora para a caneta, ora para mim, ora para a caneta... Preocupei-me, é certo, porque vi logo ali uma adversária, alguém que tinha dado conta da minha sensualidade pouco disfarçada ao dirigir a palavra ao professor e que não se sentia bem com isso. No filme que já se estava a desenrolar na minha cabeça, estávamos já, eu e ela de frente uma para a outra, distanciadas por um chão poeirento iluminado por um Sol abrasador, de olhos piscos a tentarmo-nos aniquilar com a força da mente, porque sim, eu tenho um fetiche com aquele professor, não sei bem porquê (acho que tem qualquer coisa a ver com o facto de já me ter preparado psicologicamente para daqui a uns tempos lhe mostrar algo mais que capacidades intelectuais para entrar num Mestrado...). Já estava eu a medi-la de alto a baixo, de soslaio e com o meu olhar de superior, e eis que ela se pulveriza automaticamente, quando não se detém e pergunta à coleguinha do lado, com o ar de quem acabou de ouvir que afinal o Mundo é de facto e comprovadamente, um rectângulo: "o que é uma lapiseira supra-numerária?"
Tivesse eu uns ditos cujos para cair, e ter-me-iam caído logo ali! Como é que é possível que se chegue à faculdade e não se saiba o que raio quer dizer "supra-numerária"?! Pior do que isto, só mesmo o outro que não sabia o que eram "aqueles números entre parêntesis depois da vírgula"! Mas a mim só me calham abéculas, não só?
A amiga do lado pois, sabia tanto quanto ela, e a cachopa lá voltou a olhar para mim, ainda de boca aberta, a pensar que "supra-numerária" devia querer dizer "sem tampa", e a esta hora ainda devo ser conhecida pela "miúda que sabe termos estranhos para designar coisas mais que corriqueiras"...
E ainda achava eu que ela ia ser uma adversária... Parece-me que tenho mesmo é que me preocupar com o jovem, e repito o jovem, que diz que -e depois do professor ter dito que não é garantido subir-se a nota nas orais, podendo mesmo descê-la-, que "ai, eu numa oral subia logo a nota! Logo eu! Deixava cair o lápis sem querer e oh, já estava", o que quer que isto queira dizer, apesar de eu conseguir pensar em muita coisa, mas não quero sequer ir por aí...
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Pensamento do Dia
O
"A vida é como uma pila: quando está murcha, de pouco vale; quando está dura, fode-nos."
Samuel Shem, A Casa dos Deuses
Samuel Shem, A Casa dos Deuses
sábado, 18 de abril de 2009
sexta-feira, 17 de abril de 2009
E a produtividade de certas aulas práticas...
Se a Muralha da China ardesse, era a maior firewall do Mundo!
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Mas nós somos Brasileiros ou somos Portugueses?!
Primeiro, o Acordo Ortográfico, que não nem vou falar dele...
Agora, chuva e Sol ao mesmo tempo!!!
Mas nós temos praias com areais imensos, quentes todo o ano? Marginais conhecidas aquém e além fronteiras, fotografadas em postais e suspiradas em jeitos de desejos muito mais que culturais, com canções a elas dedicadas? Temos cidades com toponímias que fazem, por si só, mover-nos o corpo? Temos a dança, de ritmos quentes feita, viva e presente na cultura e nas vontades? Temos gajas boas de biquínis reduzidos, corpos masculinos bem desenhados, de tez brilhante e dourada, com sunguinhas a tornearem o que Deus Nosso Senhor, com toda a propriedade a que Lhe assiste, lhes deu? Não temos, pois claro que não temos! Então porquê, mas porquê, o Sol e a chuva ao mesmo tempo?
Eu já nem sabia se parecia mais pateta com os óculos-de-sol postos e a apanhar com os pingos na cabeça, se por abrir o guarda-chuva e estar um daqueles sóis que aquece o pêlo capilar!
Agora, chuva e Sol ao mesmo tempo!!!
Mas nós temos praias com areais imensos, quentes todo o ano? Marginais conhecidas aquém e além fronteiras, fotografadas em postais e suspiradas em jeitos de desejos muito mais que culturais, com canções a elas dedicadas? Temos cidades com toponímias que fazem, por si só, mover-nos o corpo? Temos a dança, de ritmos quentes feita, viva e presente na cultura e nas vontades? Temos gajas boas de biquínis reduzidos, corpos masculinos bem desenhados, de tez brilhante e dourada, com sunguinhas a tornearem o que Deus Nosso Senhor, com toda a propriedade a que Lhe assiste, lhes deu? Não temos, pois claro que não temos! Então porquê, mas porquê, o Sol e a chuva ao mesmo tempo?
Eu já nem sabia se parecia mais pateta com os óculos-de-sol postos e a apanhar com os pingos na cabeça, se por abrir o guarda-chuva e estar um daqueles sóis que aquece o pêlo capilar!
quarta-feira, 15 de abril de 2009
A Senhora Que Não Podia Parar
Reza a lenda, que em longínquas madrugadas longe de serem aquecidas pelo Sol, esquecido delas enquanto com outras se deleita, em dias que ainda são noite, pela escuridão e pelo frio, há uma senhora que não pode parar. Anda para a frente e para trás em espaços que não mudam, percorrendo somente os minutos. Porque se ela parar, o tempo pára também...
São os dias da semana que vão chegando e se sucedendo, e são matutinas as necessidades e obrigações que fazem poucas gentes convergirem para um espaço esquecido nos sonhos do Mundo que ainda dorme. À luz das luzes artificiais que o banham e pintam de amarelo-alaranjado àquelas horas, esse espaço é sempre igual: três táxis em fila, com os rádios em silêncio para não despertarem a noite, as portas abertas como que antecipando chegadas apressadas, um senhor sempre sorridente pronto a dizer a quem dela precise, que a porta da Estação "Está fechada, mas quase a abrir", e o seu saco gozando ainda do descanso, encostado à parede. Escadas descendentes vazias, o painel com as horas das partidas e destinos -sempre as mesmas, sempre os mesmos...- escadas ascendentes vazias: o desvio a que a porta "fechada mas quase a abrir" obriga. O ecoar dos passos, sempre os terceiros a lá chegarem, o rapaz que dum banco já fez sua propriedade nas esperas quotidianas, o pensar "vou-lhe atirar um sorriso! Um dia, hoje não...", o outro banco, também com direitos de propriedades já estabelecidos, o frio que as calças deixam passar, um olhar para a esquerda, e a Senhora Que Não Pode Parar.
Lá está ela. Para lá... Para cá... Há bancos e muros e encostos e espaços vazios onde sentar, encostar, simplesmente estar e esperar. Mas a Senhora Que Não Pode Parar não pode parar, e vai para lá e para cá, desde quando não se sabe, mas até ao comboio chegar, para por fim ser ele a levá-la, dando descanso aos pés, que calcorrem quilómetros quase sem sair do espaço finito de meia dúzia de metros.
Entretanto, já chegou o Senhor Que Põe A Mala Entre As Pernas E Os Pés No Limiar Da Linha Amarela, e daí a nada vai aparecer a Amiga Loira da Senhora Que Não Pode Parar, e que tem uma pronúncia a roçar dialectos do Leste.
E agora sim, com a porta da estação aberta, com o senhor sorridente e o seu saco já do lado la linha, com o Senhor Que Põe A Mala Entre As Pernas E Os Pés No Limiar Da Linha Amarela, com a Amiga Loira da Senhora Que Não Pode Parar, o comboio já pode chegar.
Mas houve um dia, em que a Senhora Que Não Pode Parar não apareceu. E depois outro, e ela não apareceu. E ainda outro e mais outro, e ela sem aparecer.
Reza a lenda, que em longínquas madrugadas longe de serem aquecidas pelo Sol, a Senhora Que Não Pode Parar parou. E os táxis continuaram lá, e o senhor sorridente continuou lá, e o saco encostado à parede continuou lá, e as escadas e o painel, e o rapaz e o banco e o outro banco e o Senhor Que Põe A Mala Entre As Pernas E Os Pés No Limiar Da Linha Amarela continuaram lá, e a Amiga Loira da Senhora Que Não Pode Parar continuou a chegar lá, todos à espera da vida que costumavam ter, mas a Senhora Que Não Pode Parar tinha parado, e com ela o tempo da Estação, e não fossem os Homens irritar o diafragma do Tempo, e ele soluçar numa hora, e nunca, nunca mais, teria havido noite de manhã.
São os dias da semana que vão chegando e se sucedendo, e são matutinas as necessidades e obrigações que fazem poucas gentes convergirem para um espaço esquecido nos sonhos do Mundo que ainda dorme. À luz das luzes artificiais que o banham e pintam de amarelo-alaranjado àquelas horas, esse espaço é sempre igual: três táxis em fila, com os rádios em silêncio para não despertarem a noite, as portas abertas como que antecipando chegadas apressadas, um senhor sempre sorridente pronto a dizer a quem dela precise, que a porta da Estação "Está fechada, mas quase a abrir", e o seu saco gozando ainda do descanso, encostado à parede. Escadas descendentes vazias, o painel com as horas das partidas e destinos -sempre as mesmas, sempre os mesmos...- escadas ascendentes vazias: o desvio a que a porta "fechada mas quase a abrir" obriga. O ecoar dos passos, sempre os terceiros a lá chegarem, o rapaz que dum banco já fez sua propriedade nas esperas quotidianas, o pensar "vou-lhe atirar um sorriso! Um dia, hoje não...", o outro banco, também com direitos de propriedades já estabelecidos, o frio que as calças deixam passar, um olhar para a esquerda, e a Senhora Que Não Pode Parar.
Lá está ela. Para lá... Para cá... Há bancos e muros e encostos e espaços vazios onde sentar, encostar, simplesmente estar e esperar. Mas a Senhora Que Não Pode Parar não pode parar, e vai para lá e para cá, desde quando não se sabe, mas até ao comboio chegar, para por fim ser ele a levá-la, dando descanso aos pés, que calcorrem quilómetros quase sem sair do espaço finito de meia dúzia de metros.
Entretanto, já chegou o Senhor Que Põe A Mala Entre As Pernas E Os Pés No Limiar Da Linha Amarela, e daí a nada vai aparecer a Amiga Loira da Senhora Que Não Pode Parar, e que tem uma pronúncia a roçar dialectos do Leste.
E agora sim, com a porta da estação aberta, com o senhor sorridente e o seu saco já do lado la linha, com o Senhor Que Põe A Mala Entre As Pernas E Os Pés No Limiar Da Linha Amarela, com a Amiga Loira da Senhora Que Não Pode Parar, o comboio já pode chegar.
Mas houve um dia, em que a Senhora Que Não Pode Parar não apareceu. E depois outro, e ela não apareceu. E ainda outro e mais outro, e ela sem aparecer.
Reza a lenda, que em longínquas madrugadas longe de serem aquecidas pelo Sol, a Senhora Que Não Pode Parar parou. E os táxis continuaram lá, e o senhor sorridente continuou lá, e o saco encostado à parede continuou lá, e as escadas e o painel, e o rapaz e o banco e o outro banco e o Senhor Que Põe A Mala Entre As Pernas E Os Pés No Limiar Da Linha Amarela continuaram lá, e a Amiga Loira da Senhora Que Não Pode Parar continuou a chegar lá, todos à espera da vida que costumavam ter, mas a Senhora Que Não Pode Parar tinha parado, e com ela o tempo da Estação, e não fossem os Homens irritar o diafragma do Tempo, e ele soluçar numa hora, e nunca, nunca mais, teria havido noite de manhã.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
One person. One hour. One & Other.
Antony Gormley on the Fourth Plinth from One & Other on Vimeo.
Mais informação no site oficial: http://www.oneandother.co.uk/
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