sábado, 17 de abril de 2010

Amélia dos olhos doces

O sr. Costa era mecânico de profissão há já mais anos dos que os que sabia contar. O sr. Costa tinha herdado as mãos ossudas do pai e uns dinheiritos dos padrinhos, com os quais montou a sua própria oficina. O sr. Costa gostava da bola, de tremoços, de beber cerveja pela garrafa e arrotar espalhafatosamente. O sr. Costa, solteiro mais por irritação que por convicção, gostava de chegar a casa, sentar-se na curva há muito marcada no assento do sofá, esticar os pés para cima do monte de jornais que nunca deitava fora à espera do Verão e das moscas para enxotar e do atear das brasas nos churrascos no fogareiro no quintal, e pegar no diário grátis do dia e passar uns bons bocados com os Classificados.

Maria Amélia era funcionária dos CTT há já vários anos, os suficientes e mais alguns para ser Chefe dos Correios. Tinha por isso um lugar de destaque, coisa que, aliás, não a apoquentava nem um bocadinho. Maria Amélia era solteira, cinquentona, é certo, mas recatada. Maria Amélia bamboleava a anca enquanto andava, fazia a barriga das pernas estremecer a cada passada dada com vigor -todas elas o eram, aliás!- no chão. Maria Amélia tinha um ar altivo, intocável, puritano até mais não. Maria Amélia ia à Missa aos Domingos, jejuava na Quaresma e ajudava os pobrezinhos no Advento. Maria Amélia mudava todos os dias a página ao missal que tinha em cima do armário ao fundo do corredor, não sem antes a ler.

Maria Amélia conseguia resistir a tudo, excepto aos avanços mais libidinosos do Sr. Costa.

A culpa era do carro de Maria Amélia, um Ford Fiesta de '92, já com muitos quilómetros feitos em viagens curtas e estradas más. Volta e meia lá tinha que voltar à oficina para um arranjo aqui, um retoque acolá, uma afinação não-sei-onde.
Ao primeiro impacto, achou-o rude, indecoroso, um pouco desleixado consigo próprio até, mas tinha tão boas referências, que "a obra sai tão perfeitinha", que lá lhe confiou o carro, achando ser a única coisa. Da segunda vez, cruz credo, que já nem se lembra muito bem, lá devia estar mais carente ou o homem mais atrevidote, sentiu de rompante uma sapatada no rabo, que valha-me Nosso Senhor, as Avés-Marias que vou ter que rezar por causa disto! Mas foi o homem que ta deu, mulher... Está bem, que seja, mas eu até gostei, mais um terço para aviar logo à noite!

Agora, o carro já nem tem que precisar de arranjo. Basta inventar-se um qualquer ruído no motor, uma qualquer vibração na manete das velocidades, que Maria Amélia corre para o mecânico. Lascivamente desfia um rosário e o que mais preciso for, que se Deus Nosso Senhor inventou o prazer, não há-de ter sido para ficar encafuado tanto tempo, que eu já penei muito por essa vida fora!
Já o sr. Costa, perdeu a conta aos jornais que não leu. Ficaram pois as Lucineides desamparadas, sem razão de ser, para ali impressas numa página de jornal sem valor.

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