sexta-feira, 2 de março de 2007

Às polémicas e a tudo que elas nos fazem passar

Este país não sobrevive sem polémicas. Do mundo do futebol ao mundo da política, da sociedade em geral à cusquice individual, nada escapa. Se não é o Mateus é o aborto. Se não é o aborto é a interrupção voluntária da gravidez. Se não é a IVG são as escutas telefónicas. Se não são as escutas telefónicas é o TGV. Se não é o TGV são os maus tratos infantis. Se não são os maus tratos infantis, são custódias parentais. Se não for nada disto, serão os exames do 12º ano, os reitores das Faculdades e Politécnicos e afins, corruptos, os peellings das supê-thias, o tabaco. E é precisamente à conta das proibições que se fazem sentir bem como as que se adivinham, que se-me vos dirijo.
Primeiro, a minha opinião em traços gerais: não fumo e o fumo do tabaco incomoda-me. Mas o que realmente me tira do sério, e me faz espéce, e me faz ter acessos de violência, a mim, pessoa tão calma, são aqueles que, querendo ser mais papistas que o Papa, acham que estão a fazer do Mundo um Mundo melhor. Filosofia não lhes falta, mas aptidão para discernir as coisas, está em falta em grande escala. Acho pois completamente desnecessário e descabido tantas proibições de se fumar aqui e ali. Sabem o que faz realmente mal à saúde? A estupidez. E nunca vi ninguém proibi-la em lado nenhum... Mas li então um artigo na "Única", revista suplementar do Expresso, no último Sábado, dia 24 de Fevereiro, do Miguel Esteves Cardoso. Não será bem um artigo, é mais uma opinião. Deixo-vos com ele. Intitula-se "É favor fumar".

A minha admiração pelos fumadores tem crescido desde que cobardemente deixei de fumar há dois anos. Haverá minoria mais acossada? Haverá perseguição mais legitimada por tudo o que é organismo? É tão violenta a propaganda que já é raro encontrar um fumador que não queira deixar de fumar e não se despreze um bocadinho por não conseguir.
Fumar em paz - até com a própria consciência - é uma actividade em vias de extinção.
Não é por deixar de praticar um desporto que uma pessoa se desinteressa dele e eu lá vou seguindo, com um mínimo de tristeza, as novidades do mundo do tabaco. Enquanto os charutos ainda são tolerados (porque, parafraseando selvaticamente Lenine, não fazem mal aos pobres), os cigarros já fazem parte de um mundo «underground», discutidos em áreas cada vez mais recônditas da Internet.
O cigarros estão agora na situação fascinante da pré-ilegalidade, como a cocaína nos tempos entusiastas de Freud ou o LSD durante a primeira metade dos anos 60.
Mesmo em minha casa, apesar dos meus protestos (como entusiástico fumador passivo que sou), criam-se alegres células tabaqueiras de onde sou cruelmente excluído. Sempre que cá vêm as minhas filhas, por exemplo. Agrupam-se à volta de um cinzeiro com a minha mulher e puxm das bisbilhotices e das galhofas. Apenas oiço as risotas do fundo do corredor.
A exclusão tem dois sentidos. É bom lembrar isso. Os ex-fumadores, sobretudo, têm a obrigação moral de velar pelos direitos daqueles que ainda fumam. Ou virão a fumar. Nem que seja pelo seguinte: verdadeira guerra não é entre fumadores e não fumadores mas entre proibidores e não-proibidores. Há por aí muita coisa agradável cuja proibição facilmente se justificaria médico-socialmente. Se o tabaco for proibido, os proibidores avançarão para outras coisas. E depois de conseguirem proibir as mais óbvias (como o álcool), passarão às mais íntimas.
Pense numa coisa que gosta de fazer e que talvez possa fazer mal (ou somente não fazer bem) a si e/ou aos outros e/ou ao Planeta. Também há-de haver quem a queira proibir. Hoje é o tabaco; amanhã será isso tudo.

E é por concordar também que a exclusão, nos seus dois sentidos, começa também a excluir os não-fumadores, como eu, que hei-de continuar a ir para casas-de-banho minúsculas, apanhar com o fumo de três ou mais cigarros já ressacados ;)

1 comentário:

Marta disse...

a culpa é da praxe...toda da praxe!!!

Mas que serão nossos jantares sem reuniões clandestinas à volta de três cigarros numa casa de banho mal amanhada????