Pedalava-se o Tour na televisão, e se era certo que ainda estávamos à mesa e que, à semelhança dos tubarões, a minha mãe diz que não consegue ouvir enquanto está a comer, eu era a única que ainda o fazia.
A páginas tantas, e tendo esta 9ª. etapa sido desastrosa no que a quedas diz respeito, o comentador faz referência a um corredor que, na Volta à Suiça, caiu e ficou em muito maus lençóis, tendo tido "um traumatismo craniano, tendo ficado alguns dias em coma induzido e, tendo já acordado, ainda só responde a estímulos simples, não consegue engolir, vai ter uma longa e penosa recuperação pela frente" e continuou no seu relato, não sei se sobre o pobre ciclista, se sobre qualquer outro coitado que hoje tenha lambido estradas francesas com os joelhos e cotovelos, se sobre a verdejante paisagem que se desenrolava perante nós, pois o meu fio de atenção à televisão é cortado à força de dois toques ao de leve no ombro, dois encostares suaves da polpa de um dedo, aos quais respondo com um virar de cabeça e vejo um olhar de pasmo e incredulidade misturados com terror, expresso em voz baixa pela senhora minha mãe com um: -Ele só come chiclets?!
-Sim minha mãe. Por isso é que a recuperação vai ser complicadota, porque ele não vai ter forcinhas...
Sabendo, mais uma vez, que a sua dúvida era tão pertinente quanto levar um guarda-chuva para o deserto, lança-me o "Oh, a sério..." de quem sabe que a minha resposta não se pautou pela integridade, já dito com os cantos dos lábios a desenharem o riso dos sábios quando cometem gralhas.
-Só responde a estímulos simples!, digo-lhe eu, depois de ter percorrido o texto que acabamos de ouvir e tendo nestas, as palavras mais foneticamente capazes de criar a confusão.
-Ai foi isso que ele disse?, diz ela já a rir o riso que diz "mais uma que era escusada".
-Não, minha mãe, disse que só comia chiclets.
A tentar manter-se séria e com o olhar malévolo que diz "tens mesmo a certeza de que queres gozar com que te põe a comida no prato?", acabamos a conversa cada uma a rir-se para seu lado, e para mais tarde -e sempre!- termos mais um momento de elevada pagodice a presentear-nos a existência.